- José Marengo afirma que o El Niño vai ocorrer, mas a intensidade ainda não é definida, devido à barreira da previsibilidade.
- O quarto relatório da Organização Meteorológica Mundial sobre a América Latina e o Caribe, apresentado em Brasília, indica clima mais quente, mais vulnerável e com extremos maiores na região.
- Brasil está em estado de atenção climática: há projeções de chuvas acima da média no Sul e de seca, calor extremo e queimadas no Norte/Nordeste, com impactos em água, energia e agricultura.
- Ações de prevenção já estão sendo consideradas, como brigadas de incêndio no Pantanal e medidas do agronegócio, embora haja desafio de transformar ciência em revisão prática de riscos.
- Marengo alerta para a influência do aquecimento global e destaca disseminação de desinformação climática, defendendo comunicação responsável e articulação entre governo, estados, municípios e ciência.
O El Niño volta a dominar o debate climático. Em audiência pública no Senado, José Antonio Marengo Orsini respondeu perguntas sobre o provável aparecimento do fenômeno e seus impactos para o Brasil. A sessão reuniu parlamentares e especialistas diante de cenários de seca, enchentes e calor extremo.
Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, afirmou que o El Niño deve ocorrer, mas ainda não é possível definir sua intensidade com precisão. O cientista destacou que previsões sobre “Super El Niño” não fazem parte da classificação climatológica tradicional.
Ele lembrou que o termo utilizado na imprensa não corresponde à terminologia científica. A climatologia trabalha com fraco, moderado, intenso e muito intenso. O pesquisador ressaltou ainda sua participação em avaliações do IPCC e na Organização Meteorológica Mundial (OMM).
O painel apresentou o último relatório da OMM sobre a América Latina e o Caribe, apresentado em Brasília em 18 de maio. O documento aponta aquecimento da região, com ondas de calor, secas mais longas e enchentes severas nos próximos anos, já com dados observados.
Marengo enfatizou que os números refletem realidade atual e impactos diretos na economia, nos ecossistemas e na saúde da população. O relatório cita também o desaparecimento da geleira de Chacaltaya, símbolo da rapidez das mudanças climáticas na região andina.
Sobre o El Niño em si, o climatologista destacou que a probabilidade de ocorrência é quase total, mas a intensidade ainda não está definida. A barreira da previsibilidade impede certezas para meses à frente, especialmente entre novembro e dezembro.
Na prática, o Brasil já vive um estado de atenção climática. O Sul tende a ter chuvas acima da média e o Norte e o Centro-Oeste podem enfrentar seca e calor intenso. O Sul, em particular, registra histórico de eventos fortes em anos de El Niño.
Marengo comparou padrões históricos de El Niño, citando 1972, 1982, 1997, 2015 e 2023. Se o comportamento for semelhante, os primeiros sinais mais fortes podem surgir já em setembro, segundo o pesquisador.
O climatologista ressaltou que o clima não atua isoladamente. Fenômenos extremos convivem com vulnerabilidade, o que aumenta impactos. O aquecimento global amplifica a força de anomalias climáticas, segundo ele.
A visão sobre prevenção aponta falhas na transformação de ciência em ações públicas. O Brasil monitora, alerta e projeta, mas ainda enfrenta ocupação irregular, pouca coordenação entre esferas de governo e insuficiente cultura de prevenção.
Marengo citou preocupações com o agronegócio e com incêndios no Pantanal. Produtores e lideranças políticas já começam a organizar brigadas preventivas, uma etapa considerada importante para reduzir danos.
Para o pesquisador, medidas de antecipação devem ir além de reagir a cada desastre. Ele sugeriu maior articulação entre governo federal, estados, municípios e comunidade científica para evitar perdas maiores, sobretudo em reservatórios, geração de energia e abastecimento.
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