- Um relatório do GI-TOC acusa elites do governo do Camarões de facilitar que empresas madeireiras associadas ao empresário Aboubakar Al Fatih explorem a Floresta de Ebo, em áreas de floresta primária.
- As concessões citadas incluem 68 mil hectares para a Sextransbois e 65 mil hectares para a SCIEB, concedidas mesmo diante de campanhas globais de proteção da floresta.
- O documento liga as empresas a Al Fatih e aponta ligações dele com o ministro da economia, Alamine Ousmane Mey, considerado aliado do filho mais velho do presidente, Franck Biya, que teria recomendado Mey para o cargo em 2011.
- Outra empresa de Al Fatih, a Camvert, recebeu uma concessão de 60 mil hectares de oleaginosas perto da Campo Ma’an, com relatos de extração de madeira pela rede dele; organizações ambientais apontam ilegalidades nessas operações.
- O relatório também aponta possível transferência de preços pela SCIEB para uma empresa-fantasma em Hong Kong e alerta para importações da União Europeia de madeira ligada à SCIEB; pede a revogação das concessões em Ebo.
Um relatório divulgado recentemente acusa elites no governo da Camarões de facilitar a atuação de empresas de madeira e agronegócio que exploram áreas de floresta primária no país. Segundo a análise, essas violações ocorrem por meio de concessões atribuídas a redes ligadas a empresários próximos de autoridades.
As empresas citadas pelo estudo são a Sextransbois, que recebeu uma concessão de 68 mil hectares na Floresta de Ebo em 2023, e a SCIEB, responsável por outra concessão de 65 mil hectares na mesma área. O relatório também vincula Boiscam e Camvert a atividades no setor florestal da região.
Segundo documentos de registro corporativo, registros comerciais e fontes do setor florestal, o estudo liga esses grupos a Aboubakar Al Fatih, um empresário cujas ligações são apontadas como facilitadoras para obterem as concessões. O relatório indica que Al Fatih mantém relações com o ministro da Economia, Alamine Ousmane Mey. Mey é tido como aliado de Franck Biya, filho mais velho do presidente Paul Biya.
A relação entre Al Fatih e figuras do círculo de Franck Biya é destacada como fator para a obtenção das concessões em Ebo, apesar de campanhas globais pela proteção do ecossistema. Em 2020 a área chegou a ter a reclassificação de uso presidencial adiada, mas, três anos depois, as concessões foram reabertas a empresas ligadas a Al Fatih.
O relatório aponta ainda que Camvert, empresa do mesmo grupo, recebeu uma concessão de 60 mil hectares para óleo de palma perto da Área de Biodiversidade Campo Ma’an, no sul. A madeira extraída dessas áreas é supostamente integrada às operações das redes associadas a Sextransbois e Boiscam.
Organizações ambientais já tinham feito críticas a Camvert, acusando a empresa de violar leis camaronenses ao não pagar royalties a comunidades vizinhas. Em uma carta de 2024, coalizões ambientais descrevem as operações como alegadamente marcadas por ilegalidades, e afirmam que as concessões de SCIEB e Sextransbois em Ebo violam a legislação local.
O relatório cita ainda uma avaliação de governança deficiente, corrupção e interesses econômicos como fatores que contribuem para a destruição de habitats críticos, incluindo áreas de gorilas e chimpanzés ameaçados na região.
Representantes do grupo indígena Banen questionaram a concessão de Ebo em ações judiciais. Pesquisadores da GI-TOC afirmam que Al Fatih tentou intermediar pagamentos a líderes tradicionais para reduzir a oposição ao logging, segundo documentos do estudo.
O Ministério das Florestas e da Vida Silvestre da Camarões não respondeu aos pedidos de comentário efetuados pela Mongabay, que divulgou a pesquisa. O relatório também analisa dados comerciais que sugerem transferência de preços, com madeira vendida a uma empresa-fantasma em Hong Kong por menos do que o valor de mercado.
Segundo o relatório, parte da madeira gerada pela SCIEB é exportada para países da União Europeia, incluindo França, Bélgica e Espanha, em valores próximos de 700 mil dólares, o que levanta questionamentos sobre o cumprimento de normas da UE para madeira. A autoria afirma que essas práticas violam regras de regulamentação de madeira da UE.
Os autores chamam autoridades florestais camaronenses a revogar as titles de exploração atribuídos às empresas de Al Fatih, sob a alegação de violação às cláusulas dos contratos e às normas do setor. Não há confirmação oficial ainda sobre alterações nas concessões de Ebo ou a abertura de novas auditorias.
O estudo destaca críticas de organizações ambientais que associam operações de Camvert a irregularidades legais e à falta de pagamento de tributos às comunidades locais. Também relata que a atividade de exploração de madeira em Ebo continua sob escrutínio internacional por impactos ambientais relevantes na fauna nativa.
Essa reportagem reforça a necessidade de transparência e de mecanismos de fiscalização mais rigorosos para o setor florestal na Camarões, com foco na proteção de ecossistemas e na observância de leis nacionais e acordos internacionais.
Entre na conversa da comunidade