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Medicina veterinária e ciência do comportamento desvendam enigmas felinos

Casos de brigas entre gatinhos, agressão à tutora e enterramento de fezes apontam para causas clínicas ou ambientais, segundo a especialista

Gato interagindo com brinquedo com penas na ponta
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  • Quatro gatos tiveram três enigmas comportamentais: brigas entre irmãos adotados, agressão de um gato contra a tutora após mudança de cidade e uma gata que enterrava fezes em roupas sujas.
  • A consultora Letícia Orlandi apontou causas clínicas em dois casos e fatores ambientais no terceiro, apoiando-se em estudos sobre comportamento felino e em parceria com veterinários.
  • Brigas entre os irmãos não aconteciam ao acaso; chegaram a apresentar ferimentos. A gatinha tinha vínculo com o homem que saiu da casa e desenvolveu infecção urinária ligada ao estresse; após tratamento, comportamento voltou ao normal.
  • No caso da agressão contra a tutora, houve indicação de dor ortopédica (osteoartrite) agravada por frio; tratamento com analgésicos, acupuntura e cobertores aquecidos tornou o gato mais tranquilo e cessaram as agressões.
  • A gata que enterrava fezes em roupas ocorreu por excesso de caixas de areia em um cômodo e higiene inadequada; solução: limpar as caixas diariamente e acrescentar pontos de eliminação.

Quatro gatos deram início a três enigmas de comportamento que podem esconder saúde ou condições ambientais inadequadas. Dois gatinhos de uma mesma ninhada passaram a brigar repentinamente, após convivência harmoniosa. Um casal viu o gato agredir a mulher após mudar de cidade. Uma gata deixou de usar a caixa de areia e passou a enterrar fezes em roupas sujas do tutor.

A consultora em comportamento animal Letícia Orlandi analisou os casos, destacando que, em dois deles, houve causa clínica para a mudança, e, no terceiro, fatores ambientais contribuíram. Orlandi atua com formação em comportamento animal pela Universidade Tuiuti do Paraná, INSPA e PUC de Minas.

Segundo Orlandi, a ciência do comportamento felino tem ganhado espaço no Brasil, com colaboração de médicos veterinários e estudos recentes para compreender condutas idiossincráticas. A entrevista ocorreu com a BBC News Brasil.

Por que os gatos começaram a brigar?

Para diferenciar briga de brincadeira, é necessário observar sinais como postura e vocalização. Brincadeiras costumam ser silenciosas, com unhas recolhidas e barriga exposta como sinal de confiança, explica a consultora.

Em contrapartida, brigas costumam vir acompanhadas de sons de dor ou defesa, como o hiss/ sibilar. Os dois irmãos envolvidos eram da mesma ninhada, um macho e uma fêmea, diz Orlandi. Adotar irmãos pode favorecer convivência, mas nem sempre impede conflitos.

A gata apresentava, ainda, arranhões e marcas de mordida, além de tufos de pelos pela casa, ampliando a suspeita de conflitos. A tutora descreveu o histórico de convivência próxima, que começou a se deteriorar após eventos pessoais recentes.

Estresse e saúde dos gatos

Estresse em felinos pode impactar a saúde física e o comportamento. Estudos indicam que alterações de rotina, sensação de perda de controle sobre o território e mudanças no ambiente elevam o estresse.

No caso analisado, a gatinha, que tinha vínculo com o ex-namorado da tutora, passou a manifestar desconforto na caixa de areia e a mia ruidosamente durante a urinação. Exames veterinários confirmaram infecção urinária associada ao estresse.

Orlandi ressalta que a agressão do irmão pode ser explicada pela presença de um indivíduo doente em um grupo animal: o grupo tende a afastar o possível transmissor de vulnerabilidade. A gata tratada recuperou-se rapidamente e o comportamento voltou ao normal.

A agressão à tutora em dias frios

Um segundo caso envolveu um gato que passou a agredir a esposa, especialmente em dias mais frios. A hipótese inicial foi dor ortopédica associada à osteoartrite, agravada pela mudança de cidade. O diagnóstico foi confirmado por exames.

Pesquisas citadas por Orlandi, como consensos sobre sinais de dor em gatos, indicam que animais com dor podem apresentar mordidas e arranhões com maior frequência. Entretanto, a agressão não é, por si só, um indicativo definitivo de dor.

Dor, trauma e convivência

O gatinho foi tratado com analgésicos, acupuntura e calor local, o que reduziu a agressividade e aumentou o conforto dele. Um trabalho terapêutico visou restabelecer a convivência entre o casal e o animal, que voltou a dormir junto.

O enigma da caixa de areia

No terceiro caso, uma gata passou a enterrar fezes em roupas sujas do tutor quando havia múltiplas caixas de areia em uso. A análise aponta que o gato percebeu sujeira em uma área de eliminação pouco monitorada. A solução envolveu limpar as caixas com mais frequência e ampliar pontos de eliminação pela casa.

Orlandi enfatiza a necessidade de divulgar mais casos de comportamento felino e a importância de avaliações cuidadosas em parceria com veterinários.

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