- No inverno passado, perdas de colônias comerciais de abelhas superaram sessenta por cento, as maiores já registradas.
- O texto defende que o problema não são ameaças isoladas, mas o sistema alimentar industrial que usa abelhas como mão de obra gig.
- A polinização de amêndoas na Califórnia envolve mais de dois milhões de colônias, responsável pela polinização de cerca de 1,4 milhões de acres, com riscos de disseminação de pragas e doenças.
- Abelhas são expostas a agroquímicos durante a polinização e enfrentam combinação de pragas, doenças, fungicidas e práticas de manejo que reduzem a saúde das colônias.
- A administração federal tem programado cortes em laboratórios e centros de pesquisa sobre abelhas, o que pode elevar custos de polinização e impactar o preço e a disponibilidade de alimentos polinizados.
- Em síntese, o declínio das abelhas exige ações como mais financiamento à pesquisa, mais áreas de conservação e rotulagem de pesticidas que capturem toxidades subletais.
O colapso das colônias de abelhas no país chegou a um ponto crítico. Comerciantes de apicultura registraram a pior perda de suas colônias no inverno, chegando a mais de 60%. O texto desafia a visão comum de que os problemas decorrem de ameaças isoladas, apontando para um sistema alimentar industrial.
A crise está ligada ao funcionamento da própria agricultura moderna. Abelhas manejadas, consideradas trabalhadores temporários, ajudam a polinizar alimentos no valor de mais de 15 bilhões de dólares e são fundamentais para mais de 130 frutas, nuts e vegetais nos EUA. Elas são transportadas entre culturas e expostas a pesticidas, com alimentação suplementar constante.
Cada ano, mais de 2 milhões de colônias são levadas para a Califórnia durante a floração de amêndoas, em um evento de polinização de grande escala. A prática, descrita como o maior evento de polinização do mundo, concentra riscos para as abelhas, que podem transferir parasitas e doenças entre colônias.
A polinização de amêndoas envolve também a exposição a agroquímicos. Fungicidas usados durante a floração podem afetar o desenvolvimento, a reprodução e a navegação das abelhas, mesmo quando não há indicação explícita de toxicidade na etiqueta. A prática aumenta a pressão sobre as colônias nessa fase crítica.
A demanda por polinização constante força os apicultores a alimentar as abelhas o ano todo com suplementos, o que eleva custos e nem sempre corresponde ao valor nutricional natural. Além disso, há a seleção de rainhas mais produtivas, que podem ser mais suscetíveis a infestações por ácaros.
O mercado de mel barato, muitas vezes importado ou adulterado, contribui para queda de preços pagos aos apicultores. Com custos pressionados, a atividade de polinização passa a depender mais de culturas como amêndoas, que respondem por grande parte da renda de muitos apiários.
Além disso, o uso de áreas de pastagem naturais tem diminuído. Milhões de acres de prairie foram convertidos para cultivo de bioenergia, reduzindo fontes de alimento para as abelhas e introduzindo pesticidas que podem afetar as colônias, com efeitos que se prolongam além das lavouras.
A administração do país também é alvo de críticas. O fechamento da Beltsville Bee Research Lab, em Maryland, reduziu o suporte à detecção de doenças e ao desenvolvimento de estratégias de manejo. A medida ocorre em meio ao corte de diversos centros de pesquisa federais, o que reduz o suporte institucional às abelhas.
Como consequência, há previsões de mudanças no custo de serviços de polinização, com efeitos indiretos no preço de frutas e vegetais no varejo, bem como na oferta de produtos polinizados pela indústria. A redução de abelhas disponíveis pode impactar safras e diversidade de produtos nas prateleiras.
O panorama aponta para um problema interligado: o que acontece na agricultura afeta diretamente as abelhas e, por consequência, a segurança alimentar. A solução exige apoio contínuo à pesquisa em polinização, preservação de áreas de habitat e revisão de rótulos de pesticidas para capturar efeitos subletalmente tóxicos.
A situação atual sugere que o problema não é apenas ambiental, mas estrutural: um conjunto de pressões que emerge do modelo agrícola que depende da polinização. O apelo é por ações concretas para sustentar as abelhas, que já cumprem seu papel há décadas.
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