- Em Watamu, Kenya, moradoras como Alice Kazungu aguardam o retorno dos pescadores no desembarque de Mida Creek, com capturas cada vez menores.
- A Mida Beach Management Unit (BMU) – Unidade de Gestão da Praia de Mida – reúne pescadores, vendedor(as) e comerciantes para compartilhar a gestão das atividades pesqueiras.
- Fatores apontados incluem práticas de pesca destrutiva, degradação de manguezais e habitats de cria, além de águas mais quentes e correntes mais fortes que reduzem as pescarias.
- O crescimento do turismo e investimentos privados preocupa o acesso tradicional a pontos de desembarque e áreas de pesca, gerando pedidos por participação pública.
- Medidas em andamento envolvem restauração de manguezais, campanhas de limpeza, zonas temporárias de pesca e ações de conservação lideradas pela comunidade.
WATAMU, Kenya — Na manhã seguinte, o bote não retornou. Desde as 8h, Alice Kazungu aguardava no cais de Mida Creek, na costa do Oceano Índico, pelo retorno dos pescadores. Horas depois, a espera continuava.
Ao redor, outras mulheres observavam as canoas que se aproximavam. Alguns pescadores voltavam sem peixe; outros não voltaram. Aos olhos de Kazungu, vendedora de peixe e vice-presidente da recém-criada Mida Beach Management Unit, a rotina é marcada pela espera.
As BMUs, unidades de gestão costeira, reúnem pescadores, comerciantes e empresários do setor para organizar a pesca local. Kazungu descreve que a captura vem reduzida há tempos, passando de blocos de pescado para apenas alguns quilos.
Mudanças no oceano
A poucos metros, Philip Baya preside o grupo de pesca local de Dongokundu. Ele pratica a atividade há mais de 30 anos e relata que, antes, o pescado ficava perto da margem. Hoje, é preciso ir mais longe para pescar.
Destruição de áreas de cria, redes monofilamento e envenenamento são apontados como causas da queda. Manguezais também sofrem porque a extração de vermes para isca danifica o ambiente de reprodução dos peixes.
Alguns relatos locais apontam águas mais quentes e correntezas mais fortes na foz. Espécies antes comuns tornaram-se raras ou sumiram, segundo Baya.
Pressões do desenvolvimento
Além da pesca, o turismo cresce junto ao litoral de Watamu. Resorts, restaurantes e passeios náuticos competem com o modo tradicional de pesca pela ocupação do espaço costeiro.
Os moradores veem positivamente o turismo como gerador de empregos, mas temem perder acessos a áreas históricas de pesca. Baya ressalta a necessidade de participação pública para evitar que o turismo sobreponha os modos de vida tradicionais.
Outro ponto de tensão envolve poluição. Pescadores afirmam que barcos turísticos costumam deixar resíduos no estuário, ampliando as pressões sobre o ecossistema.
Caminhos para a solução
Organizações comunitárias promovem restauração de manguezais, limpezas de praias e campanhas de conscientização. Kazungu participa de plantio de mangues, que servem de berçários para peixes e ajudam a proteger a linha costeira.
A Mida Creek Conservation Community coordena ações de restauração e monitoramento. A entidade destaca a importância dos manguezais para a reprodução de várias espécies.
Defensores locais defendem zonas temporárias de pesca, conhecidas como enclosures, para permitir a recuperação de estoques antes da reabertura. Baya aponta que áreas protegidas podem favorecer pescadores e turismo.
Esperança e incerteza
De volta ao cais, o céu se intensifica com a tarde. As mulheres continuam na expectativa de que os pescadores retornem com peixe suficiente para o dia.
Mesmo diante das dificuldades, a comunidade busca soluções para manter a subsistência. O futuro depende de ações locais, apoio governamental e respeito à vocação pesqueira tradicional.
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