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Quem molda o passado pode influenciar o presente

A IA redefine a memória coletiva ao gerar imagens que não existiram, colocando em jogo quem controla os modelos e o que parece ter acontecido

Quem controlar os modelos que geram as imagens controlará a memória coletiva que os alimenta e, portanto, o que parecerá ter acontecido, diz o articulista; na imagem, uma câmera fotográfica clássica e um computador moderno
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  • A inteligência artificial que gera imagens não reproduz o mundo real, mas resulta de uma memória coletiva e pode criar algo que nunca existiu.
  • A fotografia, desde o século XIX, mudou a relação entre registrar e interpretar a realidade, libertando a arte da obrigação de reproduzir fielmente o que se vê.
  • A artista Rosângela Rennó criou a série Última Foto de 2006, exibindo câmeras analógicas descartadas e a última imagem que cada uma produziu, evidenciando o fim da função da câmera e a entrada da fotografia digital.
  • Técnicas como Photoshop, filtros, deepfake e IA generativa aceleraram a capacidade de produzir imagens indistinguíveis da realidade, questionando a ideia de prova visual.
  • Questões centrais: quem controla os modelos de imagem, quem decide o que parece ter acontecido, para quem as imagens se destinam e quem é responsável por divulgá-las, especialmente em contextos como deepfakes de figuras públicas.

Quem fabrica o passado controla o presente. A inteligência artificial rompeu a ligação entre imagem e realidade e transforma a memória coletiva em campo de disputa. O tema ganha relevância ao longo de uma história que atravessa séculos de evolução visual.

A fotografia, desde o século XIX, mudou o modo de registrar o real. E o celular ampliou esse alcance, tornando cada pessoa responsável por documentar momentos históricos. Hoje, a IA permite criar imagens que não nasceram do mundo visível.

No entanto, a fronteira entre o que é autêntico e o que é fabricado se tornou menos nítida. Softwares de edição evoluíram para além da manipulação, chegando ao zero de criação. Surge, assim, um ecossistema em que a imagem pode existir sem qualquer momento real.

TEMA URGENTE

Em 2002, a primeira loja da Apple no Soho, em Nova York, indicava uma mudança no varejo. Há duas semanas, a exposição Strange Rules, em Veneza, reforçou a ideia de ruptura entre tecnologia e imaginação coletiva. O tema é apresentado como urgente.

A discussão não é apenas estética. Em março de 2022, um deepfake de Volodymyr Zelenskiy circulou pedindo aos soldados que depusessem as armas. A guerra real e a imagem falsa coexistiram, com consequências mortais.

O que resta é compreender quem decide o que parece ter acontecido. Para quem as imagens se destinam? Qual é a responsabilidade de quem as divulga? Essas perguntas definem o nosso futuro, diante de imagens sem origem verificável.

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