- A China mantém salvaguardas sobre importações, enquanto o Brasil lidera a produção e as exportações de carne bovina em um momento de aperto global.
- Em 2025, o preço do boi gordo ficou em média R$ 314,2 por arroba, alta de 22,5% frente a 2024,mas abaixo do pico de 2022.
- Analistas apontam uma inflexão gradual do ciclo pecuário entre 2026 e 2027, com menor disponibilidade de gado jovem, porém menos abrupta por avanços de tecnologia e eficiência.
- As tarifas de 50% dos EUA sobre carne brasileira, em vigor até 2025, reduziram volumes em 2025, com Brasil redirecionando a produção para Ásia, Europa, Chile e Rússia.
- Com a retirada gradual das tarifas, expectativas apontam recuperação das exportações para os EUA (cerca de 400 mil toneladas em 2026) e reacomodação da demanda por cortes da região dianteira.
De salvaguardas da China ao ciclo do boi: o que muda para a pecuária brasileira em 2026 avança em meio a ajustes estratégicos. A China mantém medidas de salvaguarda sobre importações, enquanto o Brasil assume a dianteira em produção e exportação de carne bovina em um momento de aperto global de oferta. Analistas destacam que o ciclo tende a evoluir de forma mais amortecida nos próximos anos.
No Brasil, pecuaristas intensificam a diversificação de destinos e se apoiam em ganhos de produtividade para manter competitividade. Em 2025, o boi gordo atingiu média de R$ 314,2 por arroba, alta de 22,5% frente a 2024, mas ainda abaixo do pico histórico de 2022, segundo Cepea.
Para Guilherme Jank, da Datagro, o ciclo pecuário entra em uma fase decisiva após anos de liquidação de rebanho e ganhos de eficiência. A inflexão deve ocorrer entre 2026 e 2027, com menor disponibilidade de gado jovem para reposição, o que restringe a oferta de animais prontos para abate.
Essa mudança tende a ser mais suave do que em ciclos anteriores, por conta do novo patamar de eficiência na pecuária brasileira, com maior uso de tecnologia. Jank afirma que as margens atuais não são sustentáveis no longo prazo.
Panorama Brasil-China
A demanda chinesa apresenta sinais de menor aceleração, segundo o analista. Mesmo assim, metade da carne bovina importada pela China vem do Brasil, e o país asiático é destino de cerca de metade das exportações brasileiras. A margem de manobra da China para restringir compras sem desequilibrar a inflação é limitada, em cenário de déficit global de oferta.
Uma das estratégias discutidas é o rateio da cota de salvaguarda ao longo do ano, com distribuição mensal entre os principais fornecedores. A medida busca evitar corridas pontuais e diluir impactos para Brasil e China.
Impactos das tarifas e readequação de mercados
As tarifas de 50% impostas pelos EUA contra o Brasil foram zeradas para a maior parte das commodities agrícolas no fim de 2025, com exceção de café e cacau. A pecuária continua sentindo efeitos, ainda que em menor grau, conforme avaliação da Abiec.
Segundo Jank, o período de tarifas ocorreu em um momento de restrição de oferta nos EUA. A carne brasileira, especialmente na forma de cortes moedos, respondia a uma demanda americana por proteína magra. A queda de embarques a partir de agosto de 2025 foi expressiva.
Entre janeiro e julho de 2025, as exportações para os EUA ficaram próximas de 29 mil toneladas mensais. De agosto a novembro, caíram para cerca de 11 mil toneladas. No acumulado do ano, foram cerca de 270 mil toneladas, abaixo da expectativa de 400 mil.
A retração provocou queda de receita estimada em até US$ 800 milhões, dependendo da metodologia, diante do potencial perdido. Em paralelo, a indústria passou a direcionar produção a mercados como Ásia, Europa, Chile e Rússia, com margens comprimidas.
Com a retirada parcial das tarifas, as exportações para os EUA já reagiram: em dezembro de 2025 chegaram a 30 mil toneladas e, no início de 2026, registram volumes próximos de 50 mil toneladas, dentro de cotas isentas ou sujeitas à tarifa de 26,4%.
A Abiec projeta exportação de 400 mil toneladas para os EUA em 2026, aumento de cerca de 47%. A retomada tende a elevar a demanda por cortes da região dianteira do boi, mantendo a oferta doméstica estável.
Olhar para 2026 e além
Para Wagner Yanaguizawa, do Rabobank, a redução das tarifas abre espaço para novo ciclo de crescimento na carne bovina brasileira. Se mantida a tendência, o volume total para 2026 pode atingir aproximadamente 348 mil toneladas apenas com a base de 29 mil toneladas mensais.
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