- As empresas da STOXX 600 devem apresentar alta média de quatro por cento nos lucros do primeiro trimestre, com receitas subindo em torno de 1,7%, mas o impulso fica praticamente todo no setor de energia, cuja lucratividade deve subir quase 25%.
- Excluindo energia, o conjunto dos demais setores deve ter crescimento de lucro médio de cerca de 1,5%, evidenciando um cenário ainda desafiador para a maioria das empresas.
- O conflito no Oriente Médio elevou a inflação da zona do euro para 2,5% em março e pode levar o Banco Central Europeu a subir as taxas pela primeira vez em anos, com previsão de aperto adicional no curto prazo.
- Na primeira semana de resultados, marcas de luxo como LVMH, BMW e Kering divulgam números, enfrentando impactos de demanda na região, turismo e pressões regionais associadas ao conflito.
- O mercado acompanhará se a crise reduz o crescimento de forma temporária ou estrutural, com atenção especial aos bancos, cujos resultados podem ser influenciados por juros mais altos e possíveis perdas de crédito.
O saldo da temporada de resultados na zona do euro ganha peso neste começo de 2026. Empresas divulgam números trimestrais em meio a um conflito no Oriente Médio, energia mais cara e expectativa de alta de juros pelo BCE. O cenário muda a percepção de lucro e preço, além de influenciar guidance corporativo.
O resultado agregado aponta hoje para avanço de 4% nos lucros do índice STOXX 600 no 1º trimestre, ante recuo de 2% no mesmo período de 2025. Receitas sobem cerca de 1,7%, com margens sob controle, fruto de corte de custos e reestruturação. Contudo, o ganho está concentrado majoritariamente no setor de energia, que registra alta de quase 25% nos lucros.
Sem esse efeito setorial, o lucro dos demais setores avança apenas 1,5%, deixando claro um controle de margem diante da desaceleração de receita. A leitura sugere que a guerra não gerou lucro extra generalizado, apenas redistribuiu lucros entre setores e regiões.
Contexto macro
O conflito chega em momento crítico para a trajetória macro europeia. O BCE estima custo de 0,3 ponto percentuais do PIB até o fim de 2026, revisando o crescimento para 0,9% em 2026. Goldman Sachs reduziu a projeção de crescimento da zona do euro em cerca de 0,7 p.p., elevando a inflação para mais de 3% no fim de 2026.
A inflação anual da zona do euro subiu para 2,5% em março, impulsionada por preços de energia. Especialistas sugerem que a inflação pode continuar pressionando, com impactos também em preços de alimentos e fertilizantes.
Semana inaugural: luxo em foco
13 de abril marca o início da temporada com LVMH, seguido por BMW e Kering nos dias 14 de abril, e ASML e Hermès no dia 15. O ambiente macro desafia o desempenho do setor de luxo, antes otimista com o Oriente Médio como motor de receita.
Relatórios de bancos de dados de mercado indicam recuo nas estimativas de crescimento orgânico de LVMH, com a região do Oriente Médio respondendo por cerca de 6% das receitas do setor. O desempenho de 2025 foi de crescimento de 17% nessa área, mas a visão futura é menos favorável devido à queda esperada de receitas na região.
Semicondutores resilientes
ASML projeta receita líquida entre 8,2 e 8,9 bilhões de euros no 1º trimestre de 2026, com margem bruta entre 51% e 53% e expectativa de receita anual de 34 a 39 bilhões de euros. A demanda por semicondutores impulsionada por IA sustenta o cenário, mesmo com incertezas macro e controles de exportação para a China.
Peso de pedidos de fornecedores pode mudar conforme evoluam as negociações globais e a demanda por equipamentos EUV. A dúvida é se a demanda se mantém firme ou se ajustes regulatórios e geopolíticos reduzem o livro de pedidos.
Segunda e terceira semanas: industriais e sinal da energia
A segunda e a terceira semanas trazem L Oréal, EssilorLuxottica, SAP, Safran e Sanofi, além de ENI em 24 de abril. O desempenho da ENI será observado para confirmar o impulso da indústria de energia e avaliar impactos da disrupção no Oriente Médio.
Ações da ENI já subiram mais de 40% no ano. Com Brent acima de 100 dólares o barril, o setor energético permanece sob observação pela capacidade de geração de caixa no trimestre.
Quarta semana: bancos, indústrias e energia
A última semana de abril reúne Airbus, em 28 de abril, com avaliação de custos de suprimentos, e as majors de energia BP e TotalEnergies em 29 de abril. O atual ambiente de preços favorece margens, mas exige cautela com custos de cadeia e logística.
Entre os bancos europeus, a temporada fecha com resultados de BNP Paribas, Société Générale, Deutsche Bank, ING, Banco Santander e CaixaBank entre 29 e 30 de abril. Desempenho anterior, com forte surpresa positiva, pode sofrer ajuste diante da inflação e juros.
Qual é o veredito do mercado
A temporada, em conjunto, funciona como teste de resistência sob condições de conflito. O consenso aponta lucros ainda crescentes, com disciplina de custos sustentando margens, mesmo com receita contida. Contudo, o impulso de energia mascara um quadro mais frágil subjacente.
A explicação central é se os danos à economia e à confiança na Europa serão temporários ou estruturais. O diagnóstico depende de como as empresas ajustam guidance frente a choques contínuos na energia e na demanda global.
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