O dólar voltou a operar abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos. O movimento sintetiza bem a lógica do câmbio: ele reage menos a um único fator e mais a uma combinação, por vezes instável, de forças externas e internas. Ontem (13), a moeda chegou a subir, pressionada por tensões no Oriente […]
O dólar voltou a operar abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos. O movimento sintetiza bem a lógica do câmbio: ele reage menos a um único fator e mais a uma combinação, por vezes instável, de forças externas e internas.
Ontem (13), a moeda chegou a subir, pressionada por tensões no Oriente Médio. A virada veio com sinais de negociação entre Estados Unidos e Irã, que reduziram a percepção de risco global e devolveram algum apetite por ativos fora do eixo americano. O resultado foi um ajuste rápido: o dólar perdeu força e o real encontrou espaço para se valorizar.
O fato tem ocasionado divisões políticas. Para a ala governista, o recuo do dólar para a casa dos R$ 4,97 é o veredito final sobre a retomada da credibilidade institucional do país. O governo sustenta que o equilíbrio nas contas públicas e a estabilidade política tornaram o Brasil o refúgio natural para o capital que foge das incertezas globais.
O próprio presidente Lula já vinha celebrando o percurso de queda da moeda. Em cerimônia no Congresso Nacional no início de fevereiro, sintetizou essa percepção de que o câmbio é o termômetro de uma nova fase da economia brasileira:
“O dólar teve a maior queda dos últimos nove anos e a Bolsa bate recordes porque o Brasil recuperou o que é fundamental: a credibilidade. O mundo voltou a confiar na nossa seriedade, e o mercado percebeu que este país tem rumo”.
Em 26 de março, diante da mínima histórica anterior, o senador Humberto Costa (PT-PE), um dos principais aliados de Lula, afirmou que a taxa é resultado de um projeto que coloca o povo e a economia no lugar certo.
Alguns especialistas discordam. A economista Renata Barreto afirma que a queda não tem relação com a política econômica do governo: “A euforia econômica acontece apesar do governo”. Ela explica que o enfraquecimento deliberado do dólar é uma política da gestão Trump. O artigo “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System”, escrito em novembro pelo economista Stephen Miran, afirma que tarifas estão sendo utilizadas para forçar o mercado externo a negociar com os Estados Unidos.
Além disso, o dólar precisaria passar por um enfraquecimento moderado para reduzir o déficit e reindustrializar o país norte-americano. Barreto explica que o fluxo de capitais não beneficiou apenas o Brasil, mas também Colômbia, México, Chile, Peru, Índia, Tailândia e Malásia.
Para o jornalista Giuliano Guandalini, do Brazil Journal, a recente queda reflete menos um fato isolado e mais uma mudança de percepção global. Em análise, ele aponta que a tese do “Trump trade” começou a perder força, levando investidores a redistribuir recursos para emergentes.
O cerne da tese era a valorização contínua dos ativos dos EUA.
Alta pode ter sido impulsionada por ativos domésticos
Esse movimento foi reforçado por fatores domésticos. A atuação do Banco Central ajudou a conter a queda nas expectativas, enquanto o nível elevado da taxa de juros tornou o real mais atrativo.
Ainda assim, o mercado vê o cenário com cautela: há o risco de que a melhora momentânea reduza a pressão por ajustes fiscais, o que pode comprometer a sustentabilidade desse alívio no câmbio.
Um sistema em permanente ajuste
Esse tipo de oscilação raramente se explica apenas por ocorrências internas; o pano de fundo é estrutural. Nos últimos meses, o país entrou na rotação global de investimentos. Com juros ainda elevados, o Brasil voltou a oferecer um diferencial relevante.
Esse ganho obtido com taxas mais altas, atrai capital e pressiona a cotação para baixo. Esse fenômeto tem o nome de “carry”.
Há também um componente de redução do pessimismo: a percepção de risco em relação ao país não desapareceu, mas deixou de piorar no mesmo ritmo.
Nada disso, porém, garante estabilidade. O dólar continua sendo uma moeda global de segurança. Em momentos de estresse, como guerras ou mudanças abruptas de política monetária, o fluxo tende a voltar para os Estados Unidos. Por outro lado, quando esse risco diminui, o dinheiro circula, e é nesse intervalo que o real ganha espaço.
Taxa de juros é o principal fator que torna o real atrativo
Internamente, o principal pilar segue sendo o diferencial de juros. Enquanto o Brasil mantiver taxas mais elevadas que seus pares, haverá incentivo para a entrada de capital. Mas esse equilíbrio é delicado: juros altos sustentam o câmbio no curto prazo, mas pressionam a atividade econômica.
A política entra como variável inevitável. Em períodos de maior ruído, especialmente com a proximidade de ciclos eleitorais, o câmbio incorpora incertezas de forma quase imediata. Soma-se a isso o fator commodities: como exportador relevante de petróleo e minério, o Brasil se beneficia de preços elevados, que aumentam a entrada de divisas. É um suporte importante, mas dependente do crescimento global e de tensões geopolíticas.
O que emerge desse quadro é um sistema em permanente ajuste. O dólar abaixo de R$ 5 não é um ponto de chegada, mas uma fotografia de momento. A trajetória dependerá da interação entre três eixos: o rumo da economia global, a política monetária nos grandes centros e a capacidade do Brasil de manter previsibilidade. No fim, o câmbio funciona como um sintetizador dessas expectativas, revelando, em tempo real, como o mundo enxerga o risco e onde está disposto a colocar dinheiro.
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