- Proposta sobre fim da escala 6×1 ganha força no Congresso e divide especialistas, com possíveis impactos em custos, emprego e produtividade do transporte de cargas.
- Hoje, legislação permite até oito horas diárias e quarenta e quatro horas semanais, mantendo seis dias de trabalho por semana; a mudança pode alterar a organização da jornada no setor.
- Principais preocupações econômicas incluem aumento do custo do trabalho e possível repasse de preços, especialmente para pequenas empresas, se salários não forem reduzidos acompanhando a jornada.
- Há expectativa de ganhos de produtividade, menos desgaste e melhor saúde mental com jornadas menores, desde que haja formalização, organização e medidas de transição.
- A elevada informalidade (cerca de 43% do setor) pode limitar efeitos da reforma sem fiscalização e ações para reduzir a informalidade, sob risco de competição desigual.
A proposta de encerrar a escala 6×1 tem ganhado espaço no Congresso Nacional, gerando debate entre especialistas sobre impactos no transporte de cargas. A mudança poderia trazer ganhos sociais ao reduzir o desgaste dos motoristas, mas levanta dúvidas sobre custos operacionais e oferta de serviços.
Hoje, a legislação brasileira permite jornada de até 8 horas diárias e 44 semanais. No transporte rodoviário de cargas, isso resulta em uma semana típica com seis dias de trabalho para um dia de descanso, o que aumenta a intensidade das rotinas e eleva riscos à saúde dos trabalhadores.
Para a pesquisadora Carolina Maria Ruy, coordenadora do Centro de Memória Sindical, a redução para 5×2 pode beneficiar o setor, desde que haja medidas estruturais. Ela defende que a redistribuição de tarefas ocorra com mais contratações e sem redução salarial, em lei.
Pressão sobre custos e operação
Do ponto de vista econômico, aumenta a preocupação com o custo do trabalho. Reduzir a jornada sem cortar salários eleva o custo por hora, o que pode pressionar margens e preços. O CLP aponta efeito sobre emprego em setores com longas jornadas, como logística.
O economista Alberto Ajzental, da FGV, ressalta que, em mercados com oferta restrita de mão de obra, o custo tende a subir. Empresas podem repassar preços, reduzir contratações ou investir em automação para manter a margem e o nível de serviço.
No transporte de cargas, o desafio é direto: atividades dependem de disponibilidade contínua e cobertura de horários. Para manter o serviço, empresas podem precisar ampliar equipes, revisar rotas ou prazos, especialmente em pequenas empresas, onde o aumento de custos é mais significativo.
Produtividade e segurança
Há evidências de que jornadas menores podem elevar a produtividade. Estudos indicam redução de absenteísmo e melhora da saúde mental, o que pode impactar positivamente a operação ao longo do tempo, com menos fadiga e mais eficiência.
Segundo a especialista, um quadro com mais trabalhadores bem distribuídos tende a aumentar a produtividade, desde que haja formalização e organização do setor. O benefício depende de regras claras e fiscalização.
Informalidade e implementação
Um entrave relevante é a informalidade no transporte rodoviário de cargas, que distorce a concorrência. A Ampef estima que o setor tenha cerca de 43% de informalidade, com perda tributária anual de aproximadamente R$ 32,7 bilhões.
A avaliação aponta que aplicativos de entrega ampliam a desregulamentação e jornadas mais longas, aumentando riscos para trabalhadores não formais e pressionando o mercado formal. Medidas de fiscalização são consideradas decisivas.
Caminhos e riscos
Especialistas divergem sobre o desenho da política, mas concordam que a transição precisa ser gradual e segmentada por setor. A ideia é monitorar emprego, salários e informalidade para ajustar regras conforme a realidade do transporte de cargas.
A implementação específica no transporte de cargas deve considerar a diversidade do setor, que envolve desde grandes operadores até pequenos transportadores. Os impactos são esperados como heterogêneos, exigindo soluções adaptadas.
Mais do que uma simples mudança de jornada, o debate envolve reorganizar o trabalho e a logística nacional, buscando equilíbrio entre ganho social e custo econômico, sem prejudicar a oferta de serviços.
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