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Pesquisador expõe riscos de trabalhar como entregador de apps por 6 meses

Ao acompanhar entregador em seis meses, estudo da USP revela que prazos curtos forçam infrações, colocando vidas em risco e transferindo custos aos trabalhadores

Procurado pela reportagem, o iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores.
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  • O sociólogo Douglas Alexandre Santos trabalhou como cicloentregador no iFood por seis meses (2023–2024) para a sua dissertação de mestrado na USP, premiada em 2025.
  • A pesquisa aponta que prazos curtos impostos pelo algoritmo levam entregadores a desrespeitar regras de trânsito e correr riscos, incluindo trânsito entre carros e uso de calçadas.
  • Santos adotou limites de segurança pessoais, o que resultou em mais entregas perdidas e em bloqueio temporário de pedidos pela plataforma.
  • O estudo destaca que jovens negros de periferias veem o aplicativo como libertação profissional, mas associam a atuação ao prestígio de provar valor e de enfrentar perigos.
  • Dados do IBGE indicam que, em 2024, havia 1,7 milhão de pessoas trabalhando via apps no Brasil; entregadores representam 29,3% desse total, em meio a debates sobre regulamentação no Congresso.

Um pesquisador da USP acompanhou, por seis meses, entregadores de aplicativos na cidade de São Paulo para entender as condições de trabalho. Durante o período, Douglas Alexandre Santos atuou como cicloentregador no iFood entre 2023 e 2024 como parte de uma dissertação premiada em 2025. A pesquisa aponta que prazos curtos pressionam os entregadores a desrespeitar regras de trânsito e a colocar a própria segurança em risco.

Segundo o estudo, o algoritmo dos apps não oferece margem para prudência: a pressão por entregas rápidas faz com que trabalhadores atravessem sinais fechados, circulem por calçadas e enfrentem tráfego intenso. O pesquisador indica que a prática eleva o risco de acidentes e aumenta o desgaste físico, especialmente entre jovens negros de periferia.

Durante a experiência, Santos estabeleceu limites de segurança: não atravessar com semáforo vermelho, evitar trechos de alto risco e priorizar vias com fluxo mais seguro. Em caso de imprevistos, como falha mecânica, o tempo de entrega era recalculado, mas a plataforma também pode impor punições, como bloqueios temporários.

Contexto do setor

Em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,7 milhão de trabalhadores via aplicativo, segundo o IBGE, representando 1,9% da ocupação no setor privado. O contingente é majoritariamente de motoristas de veículo motorizado, com entregadores de bicicleta respondendo por parte relevante do grupo.

A divisão por tipo de atividade mostra que 58,3% atuam no transporte de passageiros, enquanto 29,3% trabalham com entregas. O perfil dos entregadores varia bastante: muitos jovens, negros, moradores de periferias, que veem o aplicativo como forma de autonomia, ainda que carreguem riscos.

Perspectivas e reflexos

O pesquisador destaca que a identidade profissional de muitos entregadores de bicicleta se mistura com identidades de gênero e de raça, moldando comportamentos de coragem sob pressão. Jovens relatam sensações de triunfo ao manter a rapidez, mesmo diante de perigos no trânsito.

Empresas do setor afirmam que não incentivam condutas de risco. O iFood afirma que há margem de segurança nos prazos, com ajustes automáticos em casos de chuva, pico de demanda ou vias congestionadas. A plataforma também diz oferecer treinamento, EPIs e seguro contra acidentes.

Medidas e debates

A associação Amobitec, que reúne plataformas como iFood, Uber e 99, afirma que os prazos são dinâmicos e podem ser ampliados para reduzir pressão. Em situações de imprevistos, o app pode redistribuir pedidos sem penalizar o entregador.

O iFood reforça que o uso de bicicletas é limitado a trajetos curtos e áreas com infraestrutura adequada. A empresa afirma ainda que, em caso de desvio de rota, pode reatribuir o pedido antes da retirada no restaurante, e que não há bloqueio automático por atraso. O uso de capacete é recomendado, não obrigatório.

O que diz o mercado

A Keeta, entrada recente no Brasil, diz priorizar a segurança com tecnologia para otimizar rotas sem exigir ultrapassagem de limites de velocidade. A empresa relata que mantém suporte aos entregadores e atua em parceria com autoridades para aprimorar políticas de segurança.

Outras companhias, como Rappi e 99Food, não responderam até o fechamento deste texto. O debate sobre a regulamentação do trabalho por plataformas segue em pauta no Congresso, com avanços limitados entre empresas, trabalhadores e governo.

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