- O Google Cloud apresentou ao Cade um documento apontando práticas abusivas da Microsoft para favorecer a Azure, via o modelo de licenciamento BYOL.
- O Cade abriu um inquérito em janeiro para apurar infrações à ordem econômica nos mercados de software corporativo e nuvem, com base em relatório da CMA do Reino Unido.
- O Google afirma que o BYOL, aliado a políticas de licenciamento, força uma “dupla cobrança” e eleva custos de migração para nuvens concorrentes, como Google Cloud e AWS.
- A empresa alega que a Microsoft criou o Azure Hybrid Benefit para contornar as restrições impostas aos rivais e cita exemplos de custo, dizendo que usar Windows Server/SQL Server na AWS pode sair até cinco vezes mais caro que na Azure.
- Segundo o Google, a Microsoft detém entre setenta e oitenta por cento do mercado global de sistemas operacionais para servidores, o que sustenta o argumento de poder de mercado e de lock-in, prejudicando órgãos públicos e empresas brasileiras.
O Google Cloud apresentou ao Cade um documento em que aponta supostas práticas abusivas da Microsoft para favorecer a Azure, na disputa pelo mercado de nuvem. O material é resposta ao pedido de atuação do Cade, aberto em janeiro, para apurar infrações à ordem econômica em software corporativo e computação em nuvem.
Segundo a empresa, as restrições de licenciamento da Microsoft criariam um “fechamento de mercado” que prejudicaria empresas brasileiras e órgãos públicos. O relatório acompanha recomendação da área técnica do Cade, embasada em estudo da CMA britânica, publicado no ano passado.
Para avançar no caso, o Cade requisitou posicionamentos de concorrentes e de grandes empresas sobre a atuação da Microsoft no mercado. O objetivo é entender impactos competitivos do modelo BYOL, usado para migração de licenças entre plataformas.
Licenciamento e impacto econômico
O Google sustenta que, desde outubro de 2019, a Microsoft impediu clientes com novas licenças do Windows Server de usar BYOL em Provedores Listados, incluindo Google Cloud, AWS e Alibaba. O empacotamento envolve a necessidade de nova licença via contrato de revenda (SPLA), gerando cobranças duplicadas.
Alega ainda que a Microsoft se autodesigna Provedor Listado, mas criou o Azure Hybrid Benefit para contornar as próprias restrições. Em termos práticos, o Google afirma que migrar para concorrentes pode resultar em acréscimo de cerca de 400% no custo dos serviços de nuvem, segundo o documento.
Dados apresentados pela Microsoft, segundo o Google, indicariam que usar Windows Server e SQL Server na AWS pode custar até cinco vezes mais que na Azure, por limitações de descontos de licenciamento nas nuvens rivais.
Poder de mercado e dependência tecnológica
O Google contesta a ideia de que softwares de código aberto seriam substitutos próximos de produtos proprietários. Citando a CMA e decisões do Cade, aponta que a Microsoft detém entre 70% e 80% do mercado global de sistemas operacionais para servidores.
A dependência de licenças é apontada como principal fator de lock-in, dificultando a migração de clientes para outras plataformas. O Google afirma que, sem reutilizar licenças, a Azure se tornaria a opção economicamente mais viável para muitos clientes.
Entre os produtos considerados essenciais que não estariam disponíveis para revenda no Google Cloud, o Google cita Microsoft 365, Windows Desktop e assinaturas do Visual Studio, segundo o documento encaminhado ao Cade.
Versão oficial da Microsoft e respostas de clientes
O texto do Google critica a defesa da Microsoft de proteção de propriedade intelectual com foco em grandes provedores, alegando que a prática favorece a exclusão de rivais maiores. O Google sustenta que as licenças já remuneram a empresa por meio de Software Assurance.
Advogados do Google ressaltam que a continuidade dessas práticas pode aumentar o aprisionamento tecnológico de órgãos públicos e de grandes empresas brasileiras, prejudicando a transformação digital. A Microsoft não respondeu aos pedidos de comentário até a publicação.
Reações de clientes e parceiros
Entre as respostas recebidas pelo Cade, mais de 10 companhias apontaram que a política da Microsoft influencia a escolha de provedor de nuvem. A Gol reconheceu dificuldades de migração entre provedores, citando impactos de arquitetura, dados e licenciamento.
O Bradesco informou que o BYOL reduziu custos iniciais durante a migração de on-premises para a nuvem, destacando benefícios comerciais e operacionais. Já a Claro afirmou que o modelo facilita a migração e a redução de custos iniciais, sem perceber impacto claro na concorrência.
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