- Os bancos Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco tiveram despesas com provisões contra devedores duvidosos de R$ 44,8 bilhões no primeiro trimestre, alta de 33% ante o mesmo período do ano anterior.
- O aumento reflete o ciclo de crédito restrito, a regulamentação CMN 4.966 e o ambiente macroeconômico, com a Selic em elevação, guerras geopolíticas e preços do petróleo elevados.
- O Banco do Brasil sozinha registrou custo de crédito de R$ 18,9 bilhões no trimestre, alta de 86% na comparação anual, com inadimplência rural chegando a 6,22% em março.
- O agro respondeu por R$ 7,4 bilhões do provisionamento; a recuperação esperada de créditos do agronegócio ficou em R$ 1,2 bilhão, abaixo da faixa projetada de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões.
- Entre os privados, Santander teve inadimplência de 3,3% (até 90 dias) no trimestre, Bradesco elevou o custo de crédito para 3,5%, e Itaú manteve a inadimplência em 1,9%, com projeção de alta modesta para PMEs.
O movimento de provisionamento de perdas cresceu no começo deste ano entre os principais bancos brasileiros. Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco registraram juntos 44,8 bilhões de reais em despesas com devedores duvidosos no primeiro trimestre, alta de 33% ante o mesmo período de 2025. O aumento ocorre em um cenário de crédito mais restrito e juros elevados.
O aumento reflete não apenas a deterioração da qualidade da carteira, mas também a adoção de regras mais rigorosas de reconhecimento de perdas. Regulamentação recente do CMN acelera o reconhecimento de inadimplência, pressionando provisões. Além disso, a piora macroeconômica contribui para o cenário, com endividamento elevado de famílias e empresas.
Panorama setorial e impactos
O Banco do Brasil teve custo de crédito de 18,9 bilhões de reais no trimestre, alta de 86% na comparação anual. A carteira de agronegócio representa o maior risco, impactada pela volatilidade de commodities e eventos climáticos. A inadimplência rural chegou a 6,22% em março, contra 2,76% há um ano.
Entre os bancos privados, a qualidade dos ativos também piorou, principalmente no Santander. A inadimplência dos últimos 12 meses subiu para 3,3%, acima de 3,1% no ano anterior. Bradesco e Itaú apresentaram variações menores, com o Itaú mantendo a inadimplência estável em 1,9%.
Aporte de recuperação de crédito no agro ficou abaixo do esperado, com expectativa de 2,0 a 2,5 bilhões de recuperação versus 1,2 bilhão efetivo no trimestre. O custo de crédito do Bradesco avançou para 3,5% da carteira média de empréstimos, com expectativa de manter patamar próximo a 3,3% ao longo do ano.
Desempenho por carteira e perspectivas
No agregado, grandes empresas e PMEs contribuíram para o aumento das provisões, com casos pontuais de dificuldades em companhias como Pão de Açúcar e Raízen. Executivos destacaram que o fim de programas de apoio elevou a inadimplência entre micro, pequenas e médias empresas.
Para o Bradesco, a direção sinalizou que o índice de custo de crédito deve permanecer pressionado nos próximos trimestres. Analistas do Citi ressaltaram que o indicador é a principal linha a acompanhar, pois pode impactar o RoE gradualmente.
Nova rodada de renegociação
Em março, a inadimplência total do crédito no Brasil ficou em 4,3%, segundo o Banco Central. O governo lançou uma nova edição do programa Desenrola, visando renegociar dívidas de até 15 mil reais para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos, com descontos de até 90%.
Os bancos avaliaram o programa com cautela: pode ajudar a recuperar créditos, mas não resolve a alavancagem de forma estrutural. Especialistas apontam que o impacto será mais contido entre grandes instituições, ainda que possa favorecer algumas carteiras de crédito.
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