- A regulamentação das alíquotas do Imposto Seletivo pode favorecer o mercado ilegal de bebidas, com impacto maior sobre as destiladas, segundo especialistas.
- O modelo híbrido atual, com alíquotas ad rem (por litro de álcool puro) e ad valorem (sobre o preço), pode ampliar distorções entre categorias e incentivar a ilegalidade, dizem ABBD e especialistas.
- A ABBD defende alíquotas uniformes: uma por litro de álcool puro e outra sobre o preço, sem diferenciação entre bebidas, para evitar distorções.
- O mercado ilegal de bebidas cresceu 174% em sete anos, de 2017 a 2024, chegando a 28 bilhões de reais; destilados correspondem a 28% do volume ilegal.
- Em 2024, a perda fiscal relacionada ao mercado ilegal superou gastos federais com segurança pública, destacando a importância de reduzir o diferencial de preços para diminuir evasão, proteger a saúde e enfraquecer o crime organizado.
O debate sobre o Imposto Seletivo de bebidas alcoólicas ganha novo contorno: a alíquota, se mal calibrada, pode ampliar o mercado ilegal e elevar riscos à saúde pública e à segurança. Especialistas apontam que o desenho tributário impacta diretamente o tamanho do mercado irregular.
A discussão envolve o Congresso Nacional e a regulamentação do IS. A forma de definir alíquotas pode influenciar a evasão fiscal, o contrabando e a atuação de organizações criminosas, segundo a ABBD e economistas do setor.
A ABBD alerta que distorções entre categorias elevam o diferencial de preços entre produto legal e ilegal, incentivando a ilegalidade. O argumento é de que o modelo atual favorece o crime organizado acima da saúde pública.
Avanço bilionário do ilegal
Entre 2017 e 2024, o mercado ilegal de bebidas cresceu 174%, conforme estudo da Euromonitor. O tamanho passou de 10,2 bilhões para 28 bilhões de reais, com uma estimativa de 55 bilhões de reais movimentados anualmente no país.
Destilados respondem pela maior parcela do crime: 28% do volume comercializado, segundo a Euromonitor, três vezes a média do setor (11,8%). A cerveja tem cerca de 2% de ilegalidade.
Daniela Mizumoto, head de Consultoria da Euromonitor, aponta que o alto valor agregado dos destilados facilita margens ilícitas, e a carga tributária contribui para esse patamar de preço.
Tributação como estímulo ao crime
O preço maior de bebidas legais favorece o consumo informal. A OMS aponta que mercados ilícitos reduzem a sensibilidade a aumentos de preço, prejudicando a eficácia das políticas públicas de saúde. O IS pode seguir esse padrão se houver distorções.
Especialistas destacam que o modelo híbrido proposto pela lei complementar 214/2025, com alíquotas ad rem e ad valorem, pode ampliar diferenças entre bebidas. A ABBD sustenta que o componente ad valorem pode variar conforme categoria e graduação alcoólica.
Eduardo Cidade, da ABBD, afirma que não há justificativa técnica para tratar a mesma substância de forma diferente por embalagem. O objetivo é tributar o álcool de maneira uniforme.
O risco de repetir distorções
A alíquota do IPI para destilados hoje é de 19,5%, significativamente superior a outras categorias. A ABBD alerta que esse desequilíbrio histórico já favorece o mercado ilegal de destilados.
A proposta atual permite que o ad valorem varie por categoria, o que, segundo especialistas, pode ampliar a distorção e favorecer bebidas de maior consumo. A recomendação é padronizar as alíquotas.
Régua única, transparência maior
Defensores do formato uniforme defendem uma regua única: ad rem por litro de álcool puro e ad valorem único sobre o preço, sem diferenciação entre categorias. Assim, quem consome mais paga mais, de forma previsível.
Lina Santin, da FGV, ressalta que manter o conteúdo de álcool puro como referência reduz distorções entre categorias e oportunidades de arbitragem pelo consumidor.
Segurança, saúde e arrecadação
Medidas que simplifiquem o sistema tributário ajudam a reduzir evasão e irregularidades, segundo a Euromonitor. Um IS equilibrado pode diminuir o diferencial de preços entre mercado legal e ilegal.
O fortalecimento da arrecadação, aliado à redução das ações do crime organizado, depende de um regime que trate igualmente todas as moléculas de álcool, independentemente da bebida.
Equilíbrio ou distorção
A reforma tributária representa a maior reestruturação fiscal em décadas. O IS sobre bebidas alcoólicas será um teste para o Brasil, definindo o caminho rumo a um modelo mais moderno, coerente e eficiente.
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