- Em 2025, o Brasil registrou 5.680 empresas em recuperação judicial, o maior número da série histórica, 24,3% acima de 2024; mais de 8,9 milhões de Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) negativados, com passivos superiores a R$ 185 bilhões.
- Setores urbanos aparecem com o maior volume de inadimplência: serviços respondem por 55,2% das empresas inadimplentes e 30% dos pedidos de recuperação judicial, com dívida média por CNPJ negativado acima de R$ 23 mil.
- O comércio respondeu por 21,7% dos pedidos de recuperação em 2025, reunindo cerca de 35% das inadimplentes; pressão inclui juros altos, inflação e concorrência de plataformas internacionais.
- Na construção civil, os custos dos insumos subiram, com alta de 9,7% nos materiais em doze meses até abril de 2025; médias e regionais dependem de crédito bancário tradicional, enquanto incorporadoras maiores recorrem a instrumentos como certificados de imóveis (CRI) e fundos de investimento imobiliário (FII).
- O setor de transporte rodoviário enfrenta aumento de mais de 20% no diesel no primeiro trimestre de 2026 e defasagem de frete superior a 10%; custos logísticos elevados e atrasos nos pagamentos agravam a crise e ampliam a pressão sobre a cadeia.
O aumento de medidas de inadimplência no Brasil em 2025 ampliou os desafios para serviços, comércio, construção civil e transportes. A crise, que antes atingia principalmente o agronegócio, ganhou alcance urbano e impacta pequenos, médios e grandes empresas.
Dados do setor mostram que 5.680 empresas entraram em recuperação judicial no ano passado, o maior número já registrado. Ao todo, 8,9 milhões de CNPJs estavam negativados, com passivos superiores a R$ 185 bilhões. A Selic de 14,75% agravou o aperto de crédito.
Embora o agronegócio aparente liderar os pedidos, os setores urbanos concentram o maior volume absoluto de empresas em dificuldade. O efeito é acelerado pela baixa liquidez e pelo crescimento dos custos operacionais.
Setores mais atingidos
No serviços, 55,2% das empresas inadimplentes do país estão nesse segmento, que respondeu por 30% dos pedidos de recuperação judicial em 2025. A dívida média por CNPJ negativado supera R$ 23 mil, indicando vulnerabilidade de fluxo de caixa.
No comércio, o varejo representou 21,7% dos pedidos de recuperação e cerca de 35% das inadimplentes. Grandes nomes como Americanas, Casas Bahia, Marisa, Tok&Stok, Dia e Polishop confirmaram crises já em curso entre médias e pequenas companhias.
No setor de construção civil, há desbalanceamento entre custos de insumos e dificuldade de acesso ao crédito. A alta de 9,7% em materiais de construção em 12 meses até abril de 2025 agrava margens e prazos de entrega.
O transporte rodoviário enfrenta custo elevado com diesel, que subiu mais de 20% no primeiro trimestre de 2026. Em várias rotas, o combustível representa até 70% do custo total, com defasagem de frete superior a 10%.
Contexto macro e impactos
A pandemia deixou dívidas emergenciais, hoje somadas ao aperto de crédito. O cenário é agravado pela alta taxa de juros e pela seletividade bancária prevista para 2026, com menor disponibilidade de capital de giro.
Observa-se também que a desaceleração de consumo, inflação persistente e competitividade de plataformas internacionais pressionam margens já estreitas. Muitas empresas operam com margens líquidas entre 2% e 5%.
Na construção, grandes incorporadoras recorrem a CRIs, FIIs e debêntures incentivadas, mas as médias e regionais dependem do crédito bancário tradicional, com contratos de longo prazo e custos crescentes.
Possíveis caminhos e desafios
Diante da crise, cresce a importância de instrumentos legais de recuperação. A renegociação assistida pode ser usada quando há liquidez residual e credores disponíveis para negociar.
A recuperação extrajudicial ganhou força em 2025, permitindo acordos aprovados pela maioria dos credores serem homologados judicialmente. Em casos de crise operacional, a recuperação judicial com stay period protege ativos por 180 dias.
Dados do Monitor RGF indicam maior conversão de recuperações em falências em 2025, especialmente quando o pedido é protocolado já com ativos restritos. O tempo de reação é crucial para manter a viabilidade.
Para 2026, espera-se continuidade de juros elevados, crédito seletivo e incertezas políticas. Empresas que detectam cedo sinais de deterioração conseguem negociar melhor e evitar o colapso.
Observações finais
A trajetória de recuperação exige planejamento financeiro e uso adequado de instrumentos legais. O atraso na decisão pode significar a perda de ativos, capacidade operacional e credibilidade, contribuindo para caminhos sem retorno.
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