- A inflação eleva o preço de alimentos, e refeições fora de casa ficam mais caras, levando executivos da Faria Lima a levar marmita para o trabalho.
- Pesquisa da Galunion mostra aumento no hábito de levar marmita entre a classe A nos 12 meses até abril; 61% dos entrevistados da classe A passaram a levar comida de casa com mais frequência.
- Entre todos os participantes, 58% afirmam ter adotado a marmita principalmente para economizar dinheiro, com a prática já amplificada entre jovens de 18 a 24 anos.
- Os restaurantes registram queda no movimento no horário de almoço, mesmo em áreas com maior concentração de empresas, como Brasília, devido ao uso crescente de marmitas.
- Dados do IBGE indicam alta de 6,2% nos preços da alimentação fora do domicílio em 12 meses até maio, bem acima da inflação de 4,72%; o setor encara pressão de custos e competição com apps de entrega.
O aumento da inflação leva marmitas a substituir refeições em restaurantes, até mesmo entre executivos da Faria Lima. A tendência, observada em centros empresariais de São Paulo e Brasília, mostra que trabalhadores passam a esquentar comida nas copas, reduzindo o movimento de restaurantes próximos. A motivação é estritamente financeira.
Dados de pesquisa indicam que o comportamento mudou nos últimos 12 meses, com a classe A levando mais comida de casa. Em média, 61% desses trabalhadores passaram a comer em casa com maior frequência, aponta estudo da Galunion. O mesmo aplica-se a jovens de 18 a 24 anos, segundo a pesquisa.
A dinâmica ocorre em meio a pressão inflacionária. Em maio, alimentos subiram 1,33%, pior do que a inflação geral de 0,58% no período. O custo elevado de insumos e a demanda aquecida ajudam a manter os preços fora de casa altos, ampliando a vantagem de levar marmita.
Especialistas apontam que o cenário pode piorar. O El Niño é visto como possibilidade de elevar a pressão sobre a produção agrícola, mantendo os preços dos alimentos elevados nos próximos meses, segundo analistas consultados pelo mercado.
Nos arredores de Brasília, a mudança já é visível. Na Asa Sul, restaurantes indicam queda de movimento durante o almoço, citando reajustes de custos que nem sempre conseguem repassar aos clientes. Abertura de novos pratos não compensa a queda de procura.
A diferença entre custo de comer em casa e fora é um fator central. Dados do IBGE mostram que, nos 12 meses até maio, a alimentação fora do domicílio avançou 6,2%, acima da inflação oficial. Aplicativos de entrega também pressionam os restaurantes tradicionais com promoções constantes.
A confiança do consumidor está em baixa. Pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News em maio aponta que mais da metade dos brasileiros avalia a situação econômica atual como ruim. Essa percepção pesa sobre os gastos no dia a dia.
Para o setor, o cenário é complexo. A Abrasel aponta que cerca de 58% dos restaurantes reajustaram preços em linha ou abaixo da inflação ao longo do último ano, diante de custos operacionais elevados. A indústria emprega mais de 3 milhões de pessoas em 650 mil estabelecimentos.
O setor continua desafiado pela inflação acumulada nos últimos 12 meses, que supera a meta oficial desde 2020. Mesmo com a política de juros elevada, a inflação mantém pressão sobre margens de lucro e fluxo de clientes, especialmente no almoço.
Em Brasília, o restaurante Fogo de Lenha, tradicional por quilo, relata queda no movimento e dificuldade de repassar custos. O proprietário aponta a necessidade de manter clientes para não inviabilizar o negócio, diante da combinação de inflação e menor procura.
O quadro sinaliza que a marmita deixou de ser recurso de sobrevivência para virar ajuste de consumo que atravessa diferentes camadas da sociedade, inclusive entre executivos de alto poder aquisitivo. A tendência reforça a leitura de que a inflação molda hábitos de consumo no Brasil.
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