- Julie Meyer, conhecida como a “rainha do dotcom”, foi centro de uma investigação que reúne casos de empresas insolvências, salários não pagos e perdas de milhões em Londres, Malta, Suíça e Grécia.
- Nos anos 2000, liderou First Tuesday e Ariadne Capital, tornou‑se figura de destaque no ecossistema tech europeu e recebeu honrarias como o MBE (hoje com questionamentos sobre a validade dessas condecorações).
- Entre os episódios, a crise da Ariadne Capital culminou em administração em 2017, com credores reivindicando salários e dívidas; houve acusações de uso indevido de fundos e promessas não cumpridas.
- Em Malta e Suíça, relatos de não pagamento de fornecedores e investimentos não materializados levaram a disputas legais, contas bloqueadas e acusações de fraude cross‑border em alguns casos (investigados pela imprensa e autoridades, com desdobramentos legais variados).
- No momento, Meyer mantém atividades de networking e captação de recursos em Zurique e em Atenas, mas as alegações persistem e não há condenações criminais confirmadas até o momento.
Julie Meyer, conhecida por sua atuação na cena tecnológica britânica durante os anos 2000, é alvo de uma investigação de meio político‑empresarial. A ex-estrela de Dragons’ Den é acusada de deixar um rastro de empresas insolventes, salários não pagos e investimentos perdidos em diversos países europeus, segundo relatos reunidos pela Guardian ao longo de um ano.
A apuração envolve Londres, Malta, Suíça e Grécia, com dezenas de ex-funcionários, sócios e empresários descrevendo abusos financeiros e falhas de gestão. Entre as acusações estão dívidas com fornecedores, salários pendentes e perdas de somas significativas de investidores. Meyer não comentou as acusações.
O histórico aponta para o auge durante a bolha ponto com, quando criou a First Tuesday em Londres e virou referência entre fundadores de startups. A partir de 2002, lançou Ariadne Capital e, posteriormente, o ACE fund. A gestão dessas empresas é apresentada como núcleo das controvérsias que se desenrolaram nos anos seguintes.
Em Malta, Meyer lançou Ariadne Capital Malta e promoveu um grande evento com participação de autoridades locais. Relatos indicam cobrança de notas e quebra de pagamentos a fornecedores, incluindo um caso em que uma quantia expressiva ficou sem quitação e levou a bloqueio de contas. A regulação financeira maltesa suspendeu licenças ligadas ao fundo gerido pela empresa.
Na Suíça, denúncias de desvio de recursos aparecem em transações envolvendo uma empresa de tecnologia de ScarabTech. O caso envolveu transferências de mais de US$ 200 mil a uma firma de advocacia suíça que, segundo investidores, acabou sem retorno. Investidores e ex‑parceiros relataram perda de fundos e disputas legais.
Na Grécia, participantes de eventos organizados por Meyer relataram promessas não cumpridas de investimentos. Um empresário envolvido descreve que o investimento previsto não ocorreu, com custos de participação elevados e nenhum aporte financeiro correspondente. Dois anos depois, ainda lutava para recuperar recursos investidos.
A investigação aponta ainda para desfechos legais: inquérito da Financial Conduct Authority (FCA) no Reino Unido, chamado de operação Hibbing, avaliou possíveis irregularidades na gestão de investimentos, encerrado em 2023 por insuficiência de evidências. Em 2022, Meyer teve uma ordem de não cumprimento de decisões judiciais, que resultou em medidas contra ela.
Panorama atual
A Guardian aponta 17 ações legais contra Meyer e suas empresas, com credores variando de funcionários a prestadores de serviços. Em 2024, um extrato suíço de devedores indica uma lista extensa de credores, incluindo fornecedores de serviços diversos. Milhares podem ter ficado sem pagamento.
A personalidade continua ativa no setor, realizando eventos de captação de recursos e mantendo presença em redes sociais. Em cidades como Zurique e Atenas, Meyer figura como administradora de novas iniciativas e anfitriã de encontros com possíveis investidores, segundo documentos e relatos.
Reações e créditos
A assessoria de Meyer não respondeu aos pedidos de comentário. Defensores da empresária destacam sua trajetória de sucesso e o papel histórico na conectividade entre startups e investidores. Críticos descrevem um padrão de promessas não cumpridas e perdas para terceiros, em especial pequenos empreendedores.
Fontes jurídicas e testemunhais citadas pela reportagem incluem ex‑colaboradores, fornecedores e alguns investidores que afirmam ter sido prejudicados. A reportagem observou que, embora algumas disputas tenham cessado, outras permanecem em andamento ou foram arquivadas pelos órgãos competentes.
Contexto econômico e histórico
A trajetória de Meyer acompanha a ascensão e o colapso de muitas plataformas digitais na virada do milênio. A primeira fase envolveu redes de contatos e eventos de alto impacto, que impulsionaram investimentos em startups. A partir de 2000, com o estouro da bolha, o cenário mudou drasticamente, impactando negócios de alto giro.
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