- A Polícia Federal acusa o Digimais de inflar balanços em ao menos R$ 670 milhões usando direitos sobre créditos que remontam a 1942, ligados a indenização da União e à origem da Vale.
- Os créditos derivam de uma ação movida pela família de antigos sócios da CBMS contra a União; a indenização envolve ações da Vale e seus desdobramentos, reconhecida em 1984, ainda sem liquidação.
- Em 2023, o Digimais passou a adquirir fatias do crédito por valores de mercado e regravou nos livros a valores muito superiores, como 7,7% por R$ 9 milhões, remarcado para R$ 100 milhões, e 9,25% por R$ 22 milhões, remarcado para R$ 130 milhões.
- Em setembro de 2023, Hermon FIDC comprou duas novas partes do crédito por R$ 20 milhões cada, que foram remarcadas para R$ 174,5 milhões; no total, ativos teriam valor de R$ 741,3 milhões.
- Em 2025, o banco vendeu as cotas para a controladora B.A. Empreendimentos e Participações com pagamento previsto para 2032; o Banco Central classificou a operação como burla à correção e as auditorias apontaram fragilidade de lastro, com a CLA emitindo abstenção de opinião.
A Polícia Federal aponta que o Digimais utilizou direitos sobre créditos que remontam a 1942 para inflar os ativos da instituição em pelo menos R$ 670 milhões. Os créditos são dívidas da União com herdeiros de um antigo sócio da CBMS, que deu origem à Vale do Rio Doce, hoje Vale.
Segundo a PF, a ação envolve a transformação de direitos que deveriam tramitar na 2ª Vara Federal do Rio de Janeiro em valores muito superiores aos reais. A investigação aponta que, de 2023 em diante, houve manobras contábeis para aumentar o patrimônio líquido do grupo de Edir Macedo.
Entre os feitos descritos estão aquisições de fatias do crédito por fundos da Digimais, com remarcações subsequentes a valores muito acima do custo. A primeira operação envolveu o ID 112 FIDC, com aquisição de 7,7% por R$ 9 milhões e reavaliação para R$ 100 milhões.
Pouco depois, outra fatia de 9,25% foi comprada por R$ 22 milhões e remarcada para R$ 130 milhões, segundo dados apresentados pela PF. Em setembro de 2023, Hermon FIDC comprou duas parcelas da dívida das Villela a R$ 20 milhões cada, com remarcação para R$ 174,5 milhões cada.
Ampliação da operação e caveat
Assim, ativos que custariam cerca de R$ 71 milhões teriam sido registrados pela Digimais em R$ 741,3 milhões, sem avanços no processo de liquidação previsto desde 1984. A discrepância entre custo e valor contábil suscitou questionamentos internos e externos.
A PF sustenta que o objetivo foi manter a aparência de vigor financeiro para captar recursos via CDBs, em movimento comparável ao que envolve o Banco Master. O Banco Central constatou irregularidade e determinou a reversão de lançamentos para o custo original.
Em resposta, a Digimais recorreu a nova manobra de 2025: a venda das cotas dos fundos para a controladora, a B.A. Empreendimentos e Participações, registrando o valor inflado de R$ 741,3 milhões com pagamento previsto apenas para 2032.
Avaliações e suspeitas
A operação, segundo a PF, seria uma burla às determinações do BC para correção de ativos, mantendo a exposição de crédito ao controlador em quase R$ 700 milhões. Auditorias independentes também indicaram fragilidades, com a CliftonLarsonAllen emitindo relatório com abstenção de opinião.
As apurações destacam que a carteira envolve direitos de indenização há décadas em fase de liquidação, com herdeiros ainda buscando reparação. A PF aponta que a manipulação contábil dificultaria o monitoramento do valor real desses créditos.
Contexto histórico e desdobramentos
Herdeiros de Gastão de Azevedo Villela aparecem entre os titulares originais de parte do crédito. O grupo reivindica 13,5% das 7.000 ações da Vale, prêmio que deveria ter sido quitado desde 1984, quando a sentença transitou em julgado.
A União, entretanto, não efetivou o pagamento devido, mantendo a disputa na Justiça há décadas. A PF ressalta que o caso envolve uma contabilidade que, conforme investigações, buscou refletir riqueza de forma artificial.
As etapas da apuração continuam na Justiça Federal do Rio de Janeiro, com instruções técnicas e revisões de documentos em andamento. A defesa da instituição ainda não se manifestou de forma pública sobre os fatos.
Entre na conversa da comunidade