- Com a Selic em 14,25%, o Brasil paga juros reais elevados (9,67%), tornando o crédito caro e freando o impulso produtivo da indústria de transformação.
- A participação da indústria de transformação no PIB caiu de 35,9% em 1985 para 10,8% em 2024, e o país ocupa o 15º lugar na produção industrial global (1,28%).
- Juros altos desestimulam expansão e inovação, com EBITDA em torno de 15% e dinheiro aplicado na renda fixa; bancos passaram a exigir garantias de até 110%.
- Falta de liquidez alimenta recuperação judicial e maior uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs); o investimento em P&D fica em 16,8% do PIB.
- A saída apontada é mirar mercados externos e nearshoring, buscando exportações de itens de maior valor agregado para reduzir a dependência do mercado interno.
Com a Selic a 14,25%, o Brasil registra juros reais elevados e o crédito fica menos atrativo para a indústria de transformação. O cenário freia o investimento produtivo e alimenta dúvidas sobre inovação, produtividade e competitividade.
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram queda na participação da indústria de transformação no PIB: de 35,9% em 1985 para 15,2% em 2023 e 10,8% em 2024. A posição do país no ranking global também diminui.
Atual posição brasileira entre as maiores indústrias é o 15º lugar, com 1,28% da produção mundial. A China lidera com 30,45%, seguida pelos Estados Unidos, Japão e outros. A atração de investimento fica condicionada pela rentabilidade do setor.
Impacto na expansão e no financiamento
Especialistas destacam que operações fabris tornam-se menos rentáveis frente a aplicações financeiras com rendimento alto. O economista Beny Fard aponta que o EBITDA próximo de 15% contrasta com a renda fixa a 14%, elevando a percepção de risco e desincentivando reinvestimentos.
Segundo Fard, a menor liquidez eleva pedidos de recuperação judicial, já que bancos endurecem a concessão de crédito. Garantias reais passaram a exigir até 110% do valor, tornando menos comum o crédito com aval tradicional.
A explosão dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) é apontada como resposta para adiantar recebíveis. O objetivo é manter caixa em meio ao aperto de liquidez no setor produtivo, segundo o especialista.
Efeito no consumo e na inovação
Stefano Pacini, da FGV Ibre, afirma que a política monetária restritiva atinge a indústria duas frentes: reduz o consumo de bens duráveis e adia aquisições de maquinário e modernização. Itens duráveis, semiduráveis e não duráveis sentem o maior impacto.
Pacini ressalta ainda que o investimento produtivo fica limitado pela taxa de juros elevada. A indústria atua principalmente no mercado interno, com pouca competitividade externa, salvo exceções como Embraer, agronegócio e celulose.
Historicamente, a transformação concentra 62,4% do investimento empresarial em P&D no Brasil. Com o investimento total em P&D em torno de 1,0% a 1,5% do PIB, o desenvolvimento tecnológico fica comprometido pela escassez de recursos.
Universidades e o ecossistema de pesquisa também sofrem. O ranking Global 2000 de 2026 aponta queda de posição de 87% das 52 universidades brasileiras avaliadas, reflexo do desaquecimento da indústria e de orçamentos mais restritos.
Olhar para o exterior como saída
Especialistas sugerem que a saída está na visão de longo prazo e no mercado externo, com foco no nearshoring e exportação de itens com maior valor agregado. A reconfiguração global favorece o Brasil, que possui recursos naturais e capacidade industrial para atender o mundo.
Beny Fard destaca a importância de acordos comerciais, como o recente acordo entre Mercosul e União Europeia, para posicionar o país como protagonista global, reduzindo a dependência de um mercado doméstico regulado por juros elevados.
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