- O Bank of America, com David Beker, afirma que a volatilidade externa tende a diminuir a incerteza eleitoral no Brasil, que fica em segundo plano para os investidores.
- O mercado global continua observando a possibilidade de três altas de juros do Federal Reserve a partir de setembro, impulsionadas pela inflação e pela atividade econômica dos EUA, apesar de sinais recentes contrários.
- No cenário brasileiro, o BofA projeta manter a Selic em 14,25% ao ano até dezembro, com cortes futuros apenas no segundo semestre de 2027 e em 2028, para chegar a 13,25% e 12,25%, respectivamente.
- O banco aponta que, após as eleições, pode ocorrer ajuste fiscal no Brasil, com revisões de gastos sociais e benefícios fiscais, mas sem surpresa para investidores sobre a gestão de Lula.
- A bolsa brasileira é vista sem gatilhos claros de alta sustentada, com investidores estrangeiros reduzindo posições e recursos migrando para renda fixa; fundos de crédito registram saídas, diante de risco de inadimplência.
O cenário externo permanece volátil, mas aproxima-se de um ponto em que a incerteza eleitoral brasileira passa a atrasar o radar de investidores, segundo David Beker, chefe de Economia no Brasil e de Estratégia para a América Latina no Bank of America. Ele participou de um encontro com jornalistas em São Paulo na sexta-feira, 3 de julho.
Beker aponta que o choque de preços do petróleo e as políticas tarifárias, aliados à indefinição sobre o acordo de paz com o Irã, mantêm o foco dos investidores no curto prazo, com especial atenção às possíveis altas de juros nos EUA. A leitura predominante era de que o Fed subiria a taxa.
No entanto, a queda recente do preço do petróleo e dados de empregos nos EUA indicam caminhos diferentes. A contratação no setor privado ficou 50% abaixo do esperado pelo Fed, o que pode reduzir a trajetória de aperto monetário no país.
Para o Bank of America, a volatilidade externa traz efeitos duais sobre o Brasil. Por um lado, o cenário externo ajuda a descolar o Brasil de riscos macroeconômicos domésticos no curto prazo. Por outro, aumenta a vulnerabilidade frente a choques externos.
O banco projeta a Selic estável em 14,25% ao ano até dezembro, mesmo com a percepção de queda no preço do petróleo, inflação moderada e atividade mais fraca no Brasil. Caso o Fed suba juros, o impacto para emergentes pode ser negativo, com o dólar ganhando força.
A instituição também mantém a previsão de cortes graduais da Selic apenas a partir do segundo semestre de 2027, chegando a 13,25% ao ano, com novos cortes em 2028 para 12,25% ao ano. O PIB deste ano deve crescer 2,3% e a inflação fechando 2026 em 5,5%.
Beker mencionou que eventos como El Niño e a PEC 6×1 ainda não estão plenamente incorporados ao cálculo de inflação, apontando para riscos que podem alterar o cenário global. O cenário fiscal brasileiro é visto como expansionista, mas ajustes são considerados possíveis após as eleições.
Segundo ele, investidores estrangeiros olham para o Brasil de maneira relativa frente a outros países com problemas fiscais. Mesmo assim, o endividamento e o superávit primário são pontos de atenção se voltarem a subir de forma persistente.
Sobre o cenário político, o banco entende que não há surpresa significativa com a reeleição de Lula para os próximos passos econômicos. O principal elemento é a incerteza eleitoral, que tende a ganhar peso no segundo semestre, quando a campanha decolar.
A bolsa brasileira, na visão do BofA, não apresenta gatilhos claros para alta sustentada. As projeções de lucro para 2027, ao excluir commodities e bancos, estão acima de 40%, mas dependem de juros em trajetória menor e de atividade econômica robusta, premissas hoje desafiadas.
Na visão de Beker, o investidor estrangeiro continua sendo o principal motor de fluxos, ainda que tenha reduzido posições na bolsa. No setor doméstico, há saída de recursos de fundos de ações, com maior deslocamento para renda fixa.
Os fundos de crédito destacam saídas recentes, embora ainda pequenas, e permanecem sob observação devido à inadimplência corporativa, que chegou a 3,7% — o maior nível desde 2017 — caso os juros persistam altos e elevem o risco de crédito.
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