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Inglês afrocentrado questiona modelo tradicional de ensino da língua

Dissertação defende ensino de inglês afrorreferenciado para ampliar participação de estudantes negros e periféricos, diante de desigualdades de acesso

Três estudantes negros sentados em uma mesa estudando.
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  • A pesquisadora Beatriz Rodrigues Lima, da USP, propõe um ensino de inglês afrorreferenciado para tratar raça, linguagem e colonialidade no Brasil.
  • A dissertação, intitulada Pode a subalterna speak English?, analisa o inglês como marcador de desigualdade e ressalta o acesso desigual a cursos e materiais de qualidade.
  • A ideia surgiu ao conhecer a Odara English School, que defendia conteúdos afrorreferenciados; a prática vai além de trocar imagens por negras, buscando conexão com a realidade dos estudantes.
  • A escrita correspondente à pesquisa utiliza a escrevivência, método inspirado em Conceição Evaristo, reunindo entrevistas com professoras e entrelaçando relatos com a própria experiência da pesquisadora.
  • Entre os resultados, destacam-se a insegurança linguística sentida por docentes e a possibilidade de incluir conteúdos como samba, história afro-brasileira e até referências a artistas negros, para enriquecer o ensino do inglês.

Beatriz Rodrigues Lima investigou como raça, linguagem e colonialidade influenciam o ensino de inglês no Brasil. A dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da USP, propõe uma leitura afrorreferenciada do inglês, contrapondo narrativas que costumam privilegiar conteúdos eurocêntricos. O estudo utiliza a ideia de escrevivência, concebida por Conceição Evaristo, para dialogar com as professoras de inglês.

A pesquisadora parte da constatação de que o inglês é hoje um marcador de desigualdade, funcionando como capital simbólico. O acesso a cursos, intercâmbios e materiais de qualidade está, em geral, vinculado a classes médias e altas, majoritariamente brancas. Estudantes negros e de periferia, por sua vez, enfrentam maior dificuldade no ensino de línguas na rede pública.

Beatriz relata que seu objetivo com o ensino afrorreferenciado é ampliar a participação de pessoas periféricas no estudo do idioma, indo além de referências como Harry Potter e buscando um inglês que faça sentido para os grupos envolvidos. A experiência inicial ocorreu após a graduação em Letras-Inglês na USP, com um intercâmbio de um ano na Nova Zelândia que reforçou a percepção de brechas no acesso ao idioma.

Em 2018, acontecimentos e vivências pessoais a levaram a repensar o papel do ensino de inglês. A pesquisadora questiona se oferecer apenas para classes com maior poder econômico seria oferecer o idioma apenas para quem “manda nas outras”, abrindo caminho para experiências de ensino mais contextualizadas. A partir daí, passou a buscar iniciativas de voluntariado para democratizar o acesso ao ensino de inglês, diante de materiais ainda majoritariamente brancos e europeus.

Um ensino afrorreferenciado

Foi nesse período que Beatriz conheceu a Odara English School, escola de inglês com foco em conteúdos afrorreferenciados. Embora encerrada em 2025, a instituição inspirou a visão da pesquisadora de que o idioma pode dialogar com a história africana, brasileira e de outras regiões. Ao ingressar no mestrado em 2022, sob orientação da professora Ana Paula Martinez Duboc, Beatriz aprofundou a proposta, que difere do ensino tradicional ao alinhar-se com as realidades dos alunos e romper com a “fantasia” do sonho americano associada ao domínio do inglês.

Para a pesquisadora, o ensino afrorreferenciado não consiste apenas em substituir imagens em livros; envolve criar vínculos com os estudantes, conectando conteúdos da história africana e de outros países. Ela cita a possibilidade de abordar temas como a história do samba ou a contribuição de mulheres negras, em inglês, desde que haja pesquisa prévia e materiais adaptados. A prática enfrenta, ainda, limitações como a escassez de recursos para produção de novos materiais didáticos.

Metodologia decolonial e escrevivência

Durante o mestrado, Beatriz encontrou no conceito de escrevivência uma ferramenta para ampliar a abordagem decolonial. Em 2023, participou de uma disciplina com Conceição Evaristo, o que motivou a aplicar a escrevivência na dissertação. A técnica combina relatos de vida com a história pessoal da pesquisadora, buscando revelar perspectivas de professoras negras de inglês.

A pesquisadora entrevistou pelo menos 11 professoras de inglês, das quais quatro foram selecionadas para a versão final do estudo. As perguntas abordaram vida pessoal, trajetória acadêmica e profissional, além de experiências de aprendizado e ensino do idioma. A partir das entrevistas, emergiu o reconhecimento da insegurança linguística, termo da linguística Lourdes Ortega, que descreve a sensação de inadequação ao falar ou escrever em inglês.

As professoras entrevistadas ressignificam o ensino de inglês nos diversos contextos em que atuam, incluindo turmas com foco social ou a integração de conteúdos da cultura popular, como a obra de Racionais MC’s. A partir desses relatos, Beatriz aponta que o ensino afrorreferenciado envolve compromisso com a representatividade e com a participação efetiva dos alunos na construção de saberes.

Estudos indicam que a prática demanda esforço de elaboração de materiais pedagógicos originais, na medida em que muitos docentes recorrem a recursos já disponíveis. O trabalho de Beatriz visa mapear caminhos para que o ensino de inglês seja mais inclusivo e conectado às realidades dos estudantes, sem perder o rigor técnico e a qualidade didática.

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