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O engenheiro do gosto, perfil de quem cria sabores

Da engenharia à importação de vinhos, Ciro Lilla abriu o mercado brasileiro, diversificando rótulos e elevando o padrão do vinho fino

Foto: Arquivo Pessoal
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  • A trajetória de Ciro Lilla começou com a inovação na indústria de café da família, levando a empresa a se manter viva e se expandir internacionalmente.
  • Em 1992, ele adquiriu a importadora de vinhos Mistral para manter o fluxo de rótulos italianos e franceses e criar seu próprio mercado.
  • Lilla passou a buscar vinhos de diferentes países, incluindo Catena Zapata na Argentina e Château Musar no Líbano, ampliando o portfólio da importadora.
  • Em 1993, o crítico Robert Parker elogiou vinhos da Borgonha, houve dispute judicial com a família Faiveley, e o caso resultou em acordo e retratação, impactando a relação com a região.
  • Hoje a Mistral é comandada por Otavio Lilla, filho de Ciro, com planos de abrir uma loja física no Ipanema, no Rio de Janeiro, para educar e atrair consumidores por meio de degustação e eventos.

O engenheiro do gosto: meio século de histórias que moldaram a cultura de vinhos finos no Brasil. Ciro Lilla, graduado na Escola Politécnica da USP, viu a crise da empresa familiar de torrefação de café como oportunidade para inovar. A tentativa de manter a produção levou a uma ideia que salvou o negócio.

A partir dali, o protagonismo passou a ser da inovação: um novo processo de torra que preservava a umidade natural do grão, aumentando o peso final sem sacrificar o sabor. O caminho abriu portas no exterior, com patentes trocadas por participação societária e passaportes carimbados.

A trajetória no mundo do vinho começou num fim de semana na Livraria Cultura, quando Lilla encontrou uma enciclopédia sobre Baco. Aos poucos, a curiosidade técnica migrou para o universo vinícola, com degustações, registros e comparações que transformaram hobby em obsessão intelectual.

Na juventude, o Brasil vivia uma economia fechada e uma cultura enófila incipiente. Entre 1984 e 1990, leis protecionistas dificultavam importações de tecnologia e importação de vinhos era restrita. O mercado interno oferecia poucos rótulos e as garrafas Magnum eram proibidas por temor de competição com o vinho de garrafão.

A virada chegou na década de 1990, quando Lilla adquiriu a Mistral, importadora criada em 1973, para manter o fluxo de rótulos da Itália e da França. A ideia era criar um mercado próprio quando as opções falhavam, conectando produtores a consumidores no Brasil.

A busca levou o empresário a explorar produtores argentinos, libaneses e italianos. Em Catena Zapata, por exemplo, viu potencial para diversificar o portfólio brasileiro. Em Beirute, acompanhou a trajetória do Château Musar, com vinhos premiados mesmo em meio a conflitos, e firmou contratos que ampliaram as opções brasileiras.

No campo editorial, a experiência com o crítico Robert Parker também marcou a trajetória. Um debate sobre a qualidade de vinhos da Borgonha resultou em desfecho judicial que ajudou a consolidar a reputação de importadora brasileira, em especial nos rótulos franceses e italianos.

A Itália passou a ter presença constante na lista de importações, com visitas a produtores de Barolo e Barbaresco. O encontro com Bruno Giacosa consolidou parcerias duradouras, e o relacionamento com Angelo Gaja se tornou referência para a empresa ao longo dos anos.

Hoje, o caminho de Ciro Lilla é seguido pela família. Otavio Lilla, filho do founder, comanda a Mistral há dois anos e mantém a tradição de buscar produtores com qualidade excepcional. Em breve, a empresa abrirá uma loja em Ipanema, no Rio, com espaço para eventos e demonstrações de vinho.

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