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Jean-Paul Sartre debate filosofia no interior de São Paulo

Conferência de Sartre no interior de São Paulo, em Araraquara, atraiu intelectuais de todo o Brasil e se tornou marco global, coincidindo com goleada do Santos de Pelé

Fotografia do Jean-Paul Sartre ao lado da esposa, Simone de Beauvoir (à direita), durante conferência realizada na cidade de Araraquara.
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  • Em 4 de setembro de 1960, Sartre proferiu uma conferência na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, interior de São Paulo.
  • A visita de Sartre e Simone de Beauvoir ao Brasil ocorreu a convite de Jorge Amado e Zélia Gattai, passando por cidades como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus.
  • A conferência, única palestra teórica de Sartre no Brasil, ajudou a consolidar a FCLar no cenário acadêmico e internacional.
  • Na plateia estavam futuro referência nacionais, como Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso, além de presidentes da época e jornalistas, com a cobertura de Inácio de Loyola Brandão.
  • Simultaneamente, ocorreu um jogo entre Ferroviária e Santos, que terminou com vitória do Santos por 4 a 0, gerando a impressão de que a celebração era pela presença de Sartre.

No dia 4 de setembro de 1960, a Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara recebeu uma conferência do filósofo Jean-Paul Sartre, principal representante do existencialismo. O evento, realizado antes da incorporação da instituição à Unesp, marcou a história da FCLar e do interior paulista.

Sartre viajava com a esposa Simone de Beauvoir, acompanhados pelo escritor Jorge Amado e Zélia Gattai. O grupo percorreu cidades brasileiras em visita a escolas, mercados e comunidades, dialogando com trabalhadores, estudantes e intelectuais. A viagem teve forte tom político, em meio à Guerra Fria.

O anseio pela palestra nasceu de um desafio de Fausto Castilho, professor da FFCL de Araraquara, que questionou Sartre sobre as relações entre subjetivo e objetivo, filosofia e ideologia. A pergunta, enviada de Recife, ganhou versão ampliada em São Paulo para a conferência.

A cidade de Araraquara, com cerca de 80 mil habitantes na época, recebeu a comitiva em meio a uma atmosfera misturada entre interesse intelectual e resistência conservadora local. A presença de Sartre foi vista com cautela por setores da igreja e pela sociedade que defendia reformas sociais.

A conferência e o público

Na ocasião, cerca de 100 pessoas estiveram presentes no anfiteatro do antigo Teatro Municipal. Entre eles estavam o reitor da Unesp (1984-1989), Jorge Nagle, Ruth Cardoso, Bento Prado Jr., João Cruz Costa, José Celso Martinez Corrêa, Dante Moreira Leite, Miriam Moreira Leite, Antonio Candido e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A cobertura ficou a cargo de Inácio de Loyola Brandão.

A palestra, apresentada em formato de conferência, rendeu interpretações que ecoam até hoje nos estudos sobre Sartre no Brasil. O material da apresentação figura na obra Sartre no Brasil: a conferência de Araraquara, publicada pela Editora Unesp em versão bilíngue.

Além da filosofia

Para deslocar Sartre, Beauvoir, Amado e aliados, a FFCL alugou uma kombi que levou o grupo até o centro da cidade, próximo ao Teatro Municipal. Beauvoir descreve a passagem por Araraquara em suas memórias, ressaltando a expansão do ensino superior no interior e o papel da instituição na cena acadêmica brasileira.

Enquanto a conferência ocorria, parte da população acompanhava outra manifestação de hoje lendária: o estádio Fonte Luminosa recebia o jogo entre Ferroviária e Santos, com Pelé no time visitante. O Santos venceu por 4 a 0, e a coincidência temporal contribuiu para a leitura popular do momento histórico.

Legado e continuidade

Cláudio Cesar de Paiva, então diretor da FCLar, afirma que a ida de Sartre abriu um ciclo de eventos relevantes para a universidade e para o debate filosófico no Brasil. Segundo ele, a conferência de Araraquara ganhou reconhecimento internacional, chegando a ser comentada na Sorbonne.

O episódio também impulsionou o recrutamento de docentes e o interesse de estudantes pela FCLar, ajudando a consolidar o campus no cenário universitário nacional. A obra sobre a palestra segue sendo referência em pesquisas sobre o pensamento de Sartre no Brasil.

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