- Participaram do levantamento 328 mulheres muçulmanas, que responderam questionários e relatos de forma anônima.
- Ao todo, 92,2% acreditam que mulheres muçulmanas sofrem discriminação no Brasil, e 80,4% afirmam já ter sido vítimas de preconceito.
- A forma mais comum de ataque é verbal, com ofensas ligadas por vezes a termos como “terrorista” ou “mulher-bomba”; há ainda relatos de agressões físicas, perseguições e constrangimentos em instituições.
- Entre as participantes, 82,3% são brasileiras convertidas, 12,2% brasileiras nascidas muçulmanas, 1,5% estrangeiras nascidas e 0,9% estrangeiras convertidas.
- O hijab é apontado como marcador visível de diferença, aumentando a exposição a atitudes hostis; muitos relatos indicam subnotificação e insegurança em buscar apoio institucional.
O terceiro relatório sobre islamofobia no Brasil, coordenado pela antropóloga Francirosy Campos Barbosa da FFCLRP/USP, mostra discriminação persistente contra mulheres muçulmanas. Dados de 328 entrevistadas revelam violência verbal, agressões físicas e exclusão institucional.
Entre as entrevistadas, 92,2% consideram que mulheres muçulmanas sofrem discriminação no país e 80,4% já foram vítimas de preconceito. Os relatos destacam ataques verbais, como termos pejorativos ligados a terrorismo, além de episódios mais graves no cotidiano.
A pesquisa aponta que 82,3% das participantes são brasileiras que se converteram ao islamismo ao longo da vida, 12,2% nasceram muçulmanas no Brasil, 1,5% são estrangeiras nascidas e 0,9% estrangeiras que se converteram.
Violência cotidiana e invisível
Entre brasileiras revertidas, a vulnerabilidade é elevada. A maioria reconhece discriminação, com mais de 80% relatando preconceito ou islamofobia. Os episódios ocorrem em espaços públicos, no trabalho, na internet e dentro de casa.
A rejeição familiar é marcada neste grupo, explica a pesquisadora: a não comunhão na fé da família de origem aumenta a tensão. O uso do hijab intensifica a hostilidade e a incompreensão religiosa permanece como fator de risco.
Relatos trazem violência física e constrangimentos. Um caso descreve agressão durante transporte público após a retirada do hijab. Outros mencionam agressões por homens e ridicularização nas vias públicas, bem como impedimentos em entrevistas de emprego.
Entre estrangeiras, islamofobia se confunde com xenofobia. Mais da metade sofre discriminação por origem, e todas as participantes afirmam já ter sido alvo por serem muçulmanas. A exclusão aparece como sensação recorrente.
O véu como marcador de exposição
O hijab aparece como elemento central na experiência de discriminação. Ele sinaliza diferença, não causa violência, mas aumenta a exposição a hostilidade. Dados mostram maior incidência de abordagens agressivas e de restrições institucionais.
Relatos indicam que algumas mulheres deixaram de usar o hijab no Brasil por medo. Outras relatam mudanças mais profundas, como consequências na carreira pela exposição da religião em redes sociais.
Indo além, uma professora relata pressão psicológica em relação à sua fé, o que levou à demissão. A percepção de preconceito no ambiente laboral é um eixo relevante do estudo.
Subnotificação e desamparo institucional
Apesar da gravidade, a maioria não busca apoio institucional nem formaliza denúncias. A subnotificação é um ponto crítico do relatório, aponta Francirosy.
A sensação de que a denúncia não renderá resposta leva ao silêncio. Em muitos casos, as violências ocorrem em espaços públicos e não são facilmente comprováveis. O desamparo é descrito pelos relatos.
Mesmo sem violência física, o impacto psicológico é profundo: medo, vergonha e sensação de não pertencimento são comuns e indicam islamofobia como experiência contínua.
Além de Francirosy Campos Barbosa, compõem a equipe Luiz Felipe D. Pereira, Camila Motta Paiva, Felipe Sanches Carnielli, Natalia Augustini e Najwa Dagash.
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