- Dalton Paula apresenta sua primeira mostra panorâmica no Inhotim, em Minas Gerais, revisitando a “história oficial” por meio de retratos de figuras negras excluídas.
- A exposição, intitulada “Dupla Cura”, explora o conforto espiritual entre autor e público, com referência aos santos São Cosme e São Damião.
- Dois vídeos da infância da artista destacam a influência religiosa na vida dele, e Paula criou o Sertão Negro, centro que oferece cursos artísticos e conecta jovens à natureza e a comunidades quilombolas.
- A mostra reúne trabalhos na galeria Mata, combinando temas históricos, cenas do cotidiano e retratos de figuras negras não representadas na memória oficial, com traços que sugerem o intangível.
- Além de celebrar os vinte anos do Inhotim, a instituição inaugura instalação de Davi de Jesus do Nascimento e apresenta a série “Contraplano” de Lais Myrrha, explorando arquitetura e ambiente.
Dalton Paula inaugura no Inhotim a sua primeira mostra panorâmica, revisando a chamada história oficial por meio de pinturas, fotografias e instalações que ressaltam figuras negras historicamente excluídas. A exposição, intitulada Dupla Cura, ocupa espaços da instituição mineira e dialoga com o público em tom documental.
A curadoria conduz pela noção de dualidade entre conforto espiritual e memória social. Beatriz Lemos explica que Dupla Cura remete aos santos Cosme e Damião, símbolos de equilíbrio entre maturidade e infância em tradições de matriz africana. A leitura busca evidenciar caminhos alternativos à narrativa hegemônica.
A mostra reúne trabalhos que vão desde retratos de figuras negras até composições que misturam objetos de uso cotidiano com referências religiosas. Em peças recentes, traços delicados formam linhas brancas entre fios de cabelo e roupas, sugerindo o que ultrapassa a realidade visível.
A curadoria e a produção enfatizam a ideia de que as obras funcionam como registros. Paula destaca a memória como fonte para construir novas trajetórias, conectando arte, território e comunidade local. Dois vídeos da fase infantil do artista integram o conjunto.
No campus do Inhotim, a instalação principal exibe a relação entre o cinema e as artes visuais. Em uma performance em vídeo, Paula atua para evidenciar o contraste entre paredes brancas e a pele retratada, enquanto recortes de jornais em fotografias questionam a mercantilização de pautas raciais.
Contexto e acervo
A narrativa da exposição se cruzou com a produção artística de Paula ao longo de duas décadas. A galeria Mata abriga obras que mostram cenários do Sertão Negro, com cenas que alternam cenas de infância, rituais e celebrações populares. A curadoria distribui parágrafos visuais entre temas, técnicas e suportes.
Entre as peças antigas, aparecem cenas de crianças brincando sob árvores e carroceiros em festas locais. Em obras mais recentes, o foco recai sobre personas negras que não aparecem nos relatos oficiais da história, abrindo uma linha do tempo alternativa pela imaginação do artista.
Dalton Paula é conhecido por subverter a história oficial ao incluir personagens e repertórios culturais marginalizados. Em peças como os retratos de líderes negros, o artista trabalha com traços que sugerem o invisível, promovendo uma leitura de memória e resistência.
Relações com o Inhotim e panorama institucional
A mostra amplia a presença de artistas negros no Inhotim, que também investe em outras iniciativas para ampliar esse espaço. Em 2022, uma edição chamada Quilombo gerou controvérsias, com críticas à permanência de obras no acervo e à ausência de pavilões dedicados.
Além de Dupla Cura, o museu apresenta outras novidades no mês. Davi de Jesus do Nascimento ocupa o espaço que antes era de Carlos Garaicoa, em uma instalação criada às margens do rio São Francisco, que convida à reflexão sobre a natureza. Outra obra recente, Contraplano, de Lais Myrrha, revisita a relação entre arquitetura e ambiente com uso de concreto e madeira.
Para Paula, inaugurar a exposição panorâmica no Inhotim funciona como um oráculo contemporâneo, capaz de indicar caminhos futuros para a produção artística no Brasil. Autoralmente, a mostra reforça a ideia de que arte pode promover encontros humanos e questionar estruturas de poder estrutural.
Entre na conversa da comunidade