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Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silêncios no Brasil

Livro revisado de Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silêncios na sociedade brasileira

A franco-brasileira Liz Feré, psicanalista e professora de Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Paris 8, na sede da RFI.
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  • Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil, usando psicanálise e análise do discurso.
  • O livro Estereótipos em cena, em segunda edição revisada, resulta de pesquisa na Universidade Paris oito e pós‑doutorado na Universidade Federal Fluminense, conectando linguagem e psicanálise para entender a formação e a circulação dos estereótipos.
  • Segundo a autora, estereótipos são traços rígidos, um sintoma social que mantém coesões rígidas e relações de poder, especialmente por meio da linguagem e dos silenciamentos.
  • A obra aborda o papel da branquitude e do privilégio, além de discutir racismo no Brasil e a dificuldade de reconhecer conteúdos não trabalhados simbolicamente.
  • A proposta é ouvir e dialogar, reunindo vozes de intelectuais, professores, poetas e artistas para ampliar a consciência sobre a realidade do outro e questionar posições fixas.

A psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil. A pesquisadora utiliza psicanálise e análise do discurso para entender como rótulos sociais emergem, se cristalizam e atravessam relações cotidianas, dificultando convivência igualitária no país.

Feré destaca que o termo estereótipo deriva de palavras gregas que sugerem rigidez. Segundo a autora, a ideia fixa sobre pessoas ou culturas funciona como um traço sólido que reduz a complexidade social, especialmente quando a linguagem reforça esse enquadramento.

No livro Estereótipos em cena, a segunda edição ampliada, a autora reúne evidências de pesquisas realizadas na Universidade Paris 8, onde leciona, e no pós‑doutorado na Universidade Federal Fluminense. O trabalho articula linguagem e psicanálise para mapear como os estereótipos se formam e se repetem no Brasil.

Estereótipos como sintoma social

Feré propõe ver os estereótipos como um sintoma relacionado às relações sociais, inspirado na psicanálise, mas deslocado para o âmbito social. O sintoma, afirma, expressa mal‑estar coletivo frente à ideia de grupos distintos. O livro aponta que certos discursos mantêm coesões rígidas e estruturam hierarquias.

A pesquisadora explica que implícitos e silenciamentos ajudam a delimitar posições de grupos na sociedade, dificultando debates que envolvam diversidade. A leitura busca ir além da interpretação consciente dos discursos, examinando conteúdos invisíveis que se manifestam na linguagem.

O que os estereótipos dizem sobre nós

Em sociedades hierarquizadas, os estereótipos funcionam como mecanismos de defesa identitária. Eles ajudam a preservar uma imagem de grupo e ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos. O tema ganha relevância em discussões sobre racismo no Brasil, onde lapsos no discurso revelam conteúdos ainda não elaborados.

Chamadas de racismo costumam produzir resistência, com respostas que minimizam o conteúdo subjacente. Segundo Feré, esses deslocamentos revelam conteúdos não trabalhados simbolicamente e podem abrir espaço para novas relações com a diversidade.

Falar a partir da branquitude

A autora contextualiza seu posicionamento como mulher branca no Brasil, destacando uma escolha ética e política de reconhecer esse lugar. Assumir a branquitude envolve questionar o universalismo associado a esse grupo e manter o debate sobre privilégios em pauta.

Feré descreve o privilégio como capital simbólico vivenciado desde a infância, mesmo em cenários de vulnerabilidade econômica. Questionar esse privilégio costuma gerar resistência, pois envolve perder parte de uma posição social privilegiada de forma não consciente.

Escuta e diálogo

O livro não oferece respostas prontas, mas defende a escuta e o diálogo como caminhos. A proposta é ampliar vozes que contestem posições fixas e aumentar a consciência sobre a realidade do outro. Textos de intelectuais, professores, poetas e artistas aparecem para ampliar o debate sobre gênero, periferias e culturas urbanas.

Essas vozes, aponta Feré, ajudam a imaginar novas formas de relação entre indivíduos e grupos, promovendo reconhecimentos diferentes e menos hierárquicos. A autora reforça a importância de abrir espaço para que diferentes perspectivas entrem no debate público.

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