- Na Índia, leis de segurança alimentar existem, mas falhas de fiscalização alimentam desconfiança e levaram famílias a processar temperos e queijos em casa.
- Dados oficiais indicam que, entre 2022 e 2025, cerca de um em cada seis amostras de alimentos não atendia aos padrões; nesse período, mais de mil licenças de negócios alimentícios foram canceladas.
- Casos de adulteração vão de chás com corantes sintéticos a especiarias com corantes artificiais; a fiscalização enfrenta o tamanho da economia informal e o recolhimento de lotes contaminados é demorado.
- A rede de varejo informal, com muitos vendedores e fábricas não registradas, dificulta rastrear a origem de produtos inseguros; o sistema de testes também é criticado por ampliar janelas de amostragem.
- Mesmo com regras, consumidores recorrem a marcas maiores ou a entregas diretas do produtor, pagando mais por segurança, enquanto especialistas ressaltam que a solução depende tanto de fiscalização quanto de engajamento de fabricantes e consumidores.
Em Delhi, na Índia, a cozinheira de 55 anos Nirmal Rao prepara uma bandeja de açafrão-dourado seco ao sol da tarde. Ao lado, ela transforma o lote de ontem em pó fino, moído na batedeira. Ela não imaginava fazer isso em casa há pouco tempo.
Rao não está sozinha. Em várias cidades indianas, famílias de classe média estão transformando cozinhas em unidades de processamento de alimentos, moendo especiarias manualmente e comprando grãos direto de produtores. a mudança é motivada pela desconfiança.
Dados oficiais apontam que, entre 2022 e 2025, aproximadamente um em cada seis lotes de alimentos testados falhou em atender aos padrões de segurança. No mesmo período, mais de 1.100 licenças de negócios alimentícios foram canceladas.
Experts destacam que falhas variam de higiene inadequada a violações de rotulagem, passando por contaminação e adulteração. Em Hyderabad, fiscais apreenderam mais de 3.000 kg de chá adulterado com corantes e ingredientes vencidos.
A adulteração de alimentos não é nova, mas o sistema regulatório enfrenta o tamanho da economia informal e o alcance das redes sociais, que aceleram receios de segurança alimentar. Raids recentes mostram leite com detergente e especiarias com corantes sintéticos.
Existem milhões de pequenos estabelecimentos não regulamentados que distribuem produtos com pouca documentação, dificultando rastreamento de origem e destino. A fiscalização convencional não alcança toda a cadeia de suprimentos.
A FSSAI, criada em 2006, regula produção, armazenamento, transporte e venda de alimentos no país, exigindo licenças para grandes empresas e estabelecimentos menores. A inspeção e coleta de amostras cabem aos agentes reguladores.
No entanto, a prática mostra que a maior parte das verificações ocorre após a ocorrência de reclamações. Empresas tendem a testar apenas o lote credenciado, deixando outras seções da produção sem verificação.
Especialistas destacam falhas na capacidade de fiscalização: em estados como Maharashtra, há menos de 500 fiscais para milhares de negócios formais e informais. A sobrecarga dificulta a responsabilização.
Países com cadeias de suprimento bem documentadas, como Itália e Reino Unido, conseguem rastrear lotes com rapidez. No cenário indiano, rastrear um lote contaminado pode levar semanas ou não ocorrer.
A escala do problema levou a debates no Conselho Nacional de Direitos Humanos, que alertou sobre a disseminação de produtos contaminados antes que autoridades pudessem agir. Enquanto isso, consumidores buscam alternativas mais seguras.
Tiash De, moradora de Mumbai, afirma que paga mais por marcas conhecidas para ter tranquilidade. Ela também usa serviço de entrega de leite direto da fazenda, custo maior, mas com percepção de maior segurança.
A demanda por alimentos orgânicos cresce no país, com expectativa de chegar a 10,81 bilhões de dólares até 2033, segundo pesquisadores da CSIR. Associações de consumidores relatam maior disposição de pagar por alimentos confiáveis.
Profissionais de saúde ressaltam que o risco não é apenas de intoxicação imediata; exposições repetidas a ingredientes de baixa qualidade podem causar danos a longo prazo. O alerta foca na prevenção contínua.
O debate destaca que a solução exige não apenas regulamentação, mas participação do fabricante e do consumidor. A FSSAI divulga orientações para detectar adulteração em casa, prática ainda rara globalmente.
De volta à cozinha de Rao, potes com especiarias caseiras ocupam as estantes antes reservadas a pacotes comerciais. Para ela, a prática é viável apenas em situações especiais, devido ao tempo exigido.
Se a confiança na alimentação pública não se recupera, a pressão por dietas seguras pode aumentar. A movimentação do mercado de alimentos orgânicos e de origem controlada sinaliza mudança no comportamento do consumidor.
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