- Em maio de 1902, um ataque violento em Encantado (RS) resultou no assassinato de dezenas de pessoas e deixou feridos durante a dispersão de um grupo liderado por um monge itinerante, conhecido como Monge Chico.
- O confronto ocorreu no contexto da Guerra de Pinheirinho, no Vale do Alto Taquari, envolvendo um grupo de cerca de sessenta desgarrados que praticava rezas, curandeirismo e furtos ocasionais.
- O líder do grupo, João Francisco Maria de Jesus, foi morto durante a ofensiva policial após tentativa de resistência, e o monge foi enterrado em uma cova rasa com os pés para fora.
- Ao todo, pelo menos vinte e dois monges foram enterrados na mata, e houve dois civis mortos, além de feridos de ambos os lados; a reação policial envolveu cerca de cento e dez brigadianos que dispararam dezenas de tiros contra o acampamento.
- O episódio é considerado, na história local, um massacre esquecido que se conecta a tensões sociais, religiosas e fundiárias da região, com debates sobre o papel da religião e da Lei de Terras de setecentos e cinquenta.
A violência ocorrida no interior do Rio Grande do Sul em 1902 envolve um movimento messiânico liderado por um monge, que se tornou alvo de uma ação policial severa no Vale do Alto Taquari. O episódio, entre rebeldia religiosa e reação estatal, resultou em um massacre quase esquecido pela memória recente.
O grupo, composto por cerca de 60 desamparados, incluindo mulheres e crianças, ocupou terras às margens do rio Taquari, hoje em Encantado. Praticava rezas, curandeirismo e pequenas ações de pilhagem para sobrevivência, reunindo até 200 pessoas ao redor de um líder cuja identidade fica associada a Monge Chico.
João Francisco Maria de Jesus, conhecido como Monge Chico, pregava uma guerra santa e uma visão messiânica. Morto pouco depois, seu corpo foi alvo de um enterro de exata crueldade. A ação policial contra o grupo ocorreu após tensões acumuladas com autoridades e colonos locais, marcando o início da repressão.
O confronto
Em 4 de maio, uma comitiva de policiais chegou ao acampamento e houve troca de tiros com o líder, que se lançou a uma ameaça de violência. Assumiu-se que o local reunia resistência, enquanto o subdelegado Napoleão Maiolli tentava conter os monges em meio a ataques de facas, porretes e armas de fogo falhando em várias oportunidades.
O choque resultou na morte de dois comerciantes locais e de dois monges, além de ferimentos graves em várias pessoas. Entre os feridos, estava o próprio subdelegado Guerino, que só retornaria à região após busca de ajuda. Crianças também sofreram com o conflito, enquanto parte do grupo se dispersava pela mata.
A polícia seguiu investidas até que um cerco definitivo foi estabelecido. Nas primeiras semanas, o combate provocou deslocamentos e privações entre moradores da região, com dezenas de pessoas fugindo para outras localidades da serra gaúcha.
Reação e desfecho
Em Porto Alegre, o governador Borges de Medeiros enviou 100 policiais sob comando de um major para restabelecer a ordem. Na conclusão do episódio, 22 monges foram enterrados na mata, e diversos sobreviventes fugiram para a região, fugindo para encerrar a violência.
Entre os moradores que permaneceram, relatos de memórias passaram a compor o retrato do conflito. O hoteleiro João Ferri, ferido no início, acabou envolvido em relações conturbadas com antigos aliados, o que ajuda a entender as tensões sociais que cercaram o episódio.
Legado e interpretações
Especialistas veem o episódio sob a lente da Lei de Terras de 1850, que facilitou a consolidação de latifúndios e minou as posses tradicionais. A visão religiosa do grupo, associada ao contexto de mudanças políticas da década, é apontada como fator determinante para o conflito.
Pesquisadores contemporâneos destacam que o massacramento refletiu disputas históricas entre colonizadores, comunidades locais e líderes religiosos itinerantes. As memórias, posteriormente, foram transmitidas por alguns descendentes e por estudos históricos, destacando a importância de revisitar o passado para compreender tensões sociais da região.
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