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No Equador, comunidade indígena enfrenta sede apesar de dois rios

Comunidade Kichwa de Capirona enfrenta falta de água potável após mineração ilegal contaminar o rio Puní com mercúrio

Women and girls from Capirona gather to collect stones and make water filters, as part of the community experiment developed in partnership with the Yachana Foundation. Image courtesy of the Yachana Foundation.
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  • A mineração ilegal ao longo do rio Puní, na Amazônia equatoriana, cresceu 2.700% entre 2017 e 2024, contaminando a principal fonte de água da comunidade indígena Kichwa Capirona.
  • Em amostras coletadas, houve Mercury em níveis 8.600 vezes acima do permitido para solos agrícolas; chromium e zinco também foram encontrados.
  • Capirona, com 300 habitantes, depende de caminhões-pipa da prefeitura para água, suficiente para cerca de 40 famílias por poucos dias, enquanto o rio está impróprio para consumo.
  • Dois moradores morreram em 2023 e a contaminação levou a comunidade a abandonar o uso da água do Puní, mesmo com resistência histórica a atividades extrativas.
  • A comunidade está buscando soluções com a Universidade Ikiam e a Fundação Yachana, desenvolvendo um sistema experimental de tratamento de água do Puní para reduzir metais pesados.

O que aconteceu, quem está envolvido, quando, onde e por quê: a comunidade indígena Capirona, no noroeste da Amazônia equatoriana, enfrenta sede causada pela contaminação de rios por mineração ilegal e atividade agrícola. Dois rios fundamentais, Puní e Shalkana, perderam parte de sua função de água potável. A situação persiste desde 2021, quando surgiram alterações no curso e na cor da água.

Capirona é uma aldeia de cerca de 300 habitantes, localizada na confluência do Puní com o Shalkana, no cantão Tena, província de Napo. Mantém, historicamente, uma economia anti-exploratória e depende de água de rios para consumo, higiene e agricultura familiar. A gravidade da crise cresce diante da proliferação de mineração ilegal a poucos quilômetros da aldeia.

Dados oficiais indicam que a atividade de mineração no leito do Puní cresceu 2.700% entre 2017 e 2024, com áreas perturbadas que passaram de 4 para 112 hectares. Cerca de 99% dessas operações ocorrem fora do registro oficial, segundo a organização MAAP. Amostras de minério revelaram mercúrio em níveis 8.600 vezes acima do permitido em solos agrícolas, elevando preocupações sobre contaminação alimentar e ecossistema aquático.

A água do Puní tornou-se morna e acinzentada, atingindo usos cotidianos como banho, lavagem de roupas e preparo de alimentos. O Shalkana também deixou de cumprir função semelhante, limitando a disponibilidade hídrica. Por dia, a comunidade recebe cerca de 2.200 litros de água fornecidos por duas caixas da prefeitura, suficientes para poucos dias para metade das famílias.

A resposta institucional inclui entregas periódicas de tanques de água pela prefeitura de Tena, com abastecimento de 1.100 litros por viagem, três dias por semana. Mesmo assim, a capirona enfrenta carência constante de água potável e dificuldades econômicas, com queda no rendimento de produtos agrícolas e deterioração da qualidade de vida.

Entre os moradores, há relatos de doenças dermatológicas e mal-estar generalizado. A vice-presidência comunitária, Linda Tapuy, descreveu agravamento de condições de saúde e a necessidade de filtragem de água para consumo doméstico. A comunidade também busca soluções de longo prazo por meio de parcerias com universidades e organizações civis.

A Capirona já buscou apoio externo para remediação. A Ikiam University analisa os impactos da mineração na coesão social, enquanto a Fundação Yachana apoia um sistema de tratamento de água artesanal. O projeto envolve estágios de pré-filtração com cascalho, biofiltração com areia e carvão ativado, visando até 300 litros diários de água tratada.

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o caso pode servir de alerta para outras comunidades vulneráveis a eventos de contaminação hídrica sem relação direta com mineração formal. A liderança comunitária enfatiza que a luta não se resume a tanques de água, mas a um direito à água e à vida, em consonância com uma identidade anti-extrativista.

O governo municipal de Tena reforça ter responsabilidade sobre o abastecimento local, apontando que a gestão de rios é competência de órgãos ambientais. A prefeitura afirma que, além dos tanques, há entregas de suporte emergencial, com planos de continuidade de assistência enquanto não houver solução estrutural.

A Capirona continua a buscar soluções integradas: apoio técnico para tratamento de água, monitoramento ambiental, cooperação com universidades, além de mobilização comunitária para transformar a resistência em uma pauta de direitos e proteção ambiental.

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