- O negociante britânico Douglas Latchford é ligado a saque de antiguidades do Camboja, removidas de sítios como Angkor Wat e Koh Ker e levadas ao mercado global.
- Um saqueador cambodjano, Toek Tik, revelou como operava a pilhagem e ajudou a associar itens a Latchford, que usava documentos e cartas para justificar origens antigas.
- Em 2011, a Sotheby’s retirou uma estátua de Duryodhana de Koh Ker de venda e a devolveu ao Camboja, estabelecendo precedente sobre proveniência duvidosa.
- Instituições como Metropolitan Museum of Art, Museu de Denver, Galeria Nacional da Austrália e outras devolveram peças ligadas a Latchford; o Met devolveu quatorze itens em 2023.
- O advogado Bradley Gordon estima que cerca de três centenas de artefatos khmer saqueados retornaram ao Camboja, com cerca de dois mil itens em museus ou coleções privadas ainda sem origem clara.
Se um item Khmer aparece no Ocidente, há grande chance de ter sido retirado ilegalmente de templos cambojanos. O personagem central deste caso é Douglas Latchford, um negociante britânico com atuação global entre os anos 1960 e 2020.
A investigação aponta que grande parte do estoque de Latchford foi saqueada de sítios como Angkor Wat e Koh Ker. Artefatos eram levados para Bangkok, depois vendidos a colecionadores e museus ao redor do mundo, com documentos falsificados para blindar a origem.
Em 2020, Latchford foi indiciado nos EUA por fraude, contrabando e conspiração, mas morreu na Tailândia antes de ir a julgamento. Autoridades afirmam que ele funcionou como um canal para artefatos saqueados durante décadas.
Seguindo o rastro
Bradley Gordon, advogado americano, dedicou anos a mapear saques e relacioná-los a peças específicas. O trabalho dele ajudou a relacionar itens a Latchford e a documentos de compra falsos.
Toek Tik, ex-saqueador cambojano, forneceu relatos detalhados sobre como funcionava a rede de contrabando. As informações ajudaram autoridades a ligar obras aos sítios originais.
A repatriação ganhou impulso com ações de museus. O Met, o Denver Museum of Art, a Galeria Nacional da Austrália e outras instituições devolveram peças ao Camboja. O esforço envolve centenas de itens.
Onda de repatriação
Em 2011, a Sotheby’s retirou de venda uma peça de Koh Ker. A empresa concordou com um acordo após questionamentos sobre a origem do item, devolvendo o artefato ao Camboja.
O Met assumiu compromissos de revisar procedência de obras ligadas a Latchford. Diversas peças já retornaram ao país, incluindo itens de bronze. O Brasil não participou deste caso.
Casos de figuras ajoelhadas e outros artefatos retornaram aos museus cambojanos nos últimos anos. Empresários bilionários também devolveram itens de seus acervos após investigações.
Gordon estima que cerca de 300 artefatos khmer saqueados retornaram ao Camboja até hoje, com mais devoluções previstas. O objetivo é devolver o maior número possível de peças às instituições de origem.
Contexto histórico e legado
Latchford abriu uma galeria em Bangkok em 1974 e ajudou a atrair interesse por arte Khmer. Entre as acusações, constavam uso de faturas e documentos para confirmar origens falsas.
A UNESCO criou salvaguardas em 1970, mas a exportação irregular de bens culturais era comum em décadas anteriores. O caso destacou a necessidade de diligência em aquisições internacionais.
A partir das devoluções, o Camboja tem reforçado o debate sobre o patrimônio cultural. Autoridades locais ressaltam que as peças têm valor simbólico e espiritual para o país.
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