- Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra imortal da Academia Brasileira de Letras, prestigia o festival Julho das Pretas em Brasília, em 4 de julho de 2026.
- Ela afirma que Um Defeito de Cor, entre outras obras, ampliou a visão sobre o racismo e ajudou a discutir políticas de cotas raciais, lançadas em dois mil e seis.
- O romance acompanha Kehinde, mulher negra sequestrada aos oito anos e levada para a Bahia; a obra influenciou o samba-enredo da Portela no carnaval de dois mil e vinte e quatro.
- A escritora ocupa a cadeira 33 da ABL, sendo a 13ª mulher e a primeira preta eleita, com a eleição ligada à candidatura de Conceição Evaristo.
- No Latinidades, Gonçalves destaca o avanço do mercado literário para autoras negras, embora continue a haver desafios de publicação, circulação e racismo cotidiano.
Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra imortal na Academia Brasileira de Letras (ABL), participou de Brasília na tarde de sábado, 4 de julho de 2026. A entrevista ocorreu durante o VI encontro Julho das Pretas que Escrevem, integrado à programação do Festival Latinidades. A atuação da escritora ressaltou o papel da literatura negra na compreensão do racismo histórico no Brasil.
O romance de maior repercussão da autora, Um Defeito de Cor, tem 952 páginas e narra a vida de Kehinde, mulher negra trazida para a escravidão no Brasil, ainda na infância. Críticos consideram a obra um marco da literatura brasileira contemporânea e apontam sua influência na percepção sobre o racismo e nas políticas de cotas, cuja construção remete ao ano de 2006, quando o livro foi publicado.
Ao falar sobre a obra, Ana Maria enfatizou que o livro não pretende ocupar uma posição marginal na história oficial, mas disputar o lugar já ocupado pelo relato feito a partir do olhar masculino branco. Ela também destacou que a narrativa amplia a compreensão do passado brasileiro sob a perspectiva de grupos historicamente silenciados.
Ancestralidade na ABL
Desde que assumiu a cadeira 33 da ABL, a autora enfatiza que chegou ao espaço graças à mobilização de coletivos e à representatividade de outras pesquisadoras negras. Ela cita a importância de a academia acolher formas de representação que correspondam aos 27% da população identificados como pretos no Brasil.
Mercado literário
No Latinidades, Ana Maria manteve encontros com escritoras negras e leitoras para debater o impacto da rede de produção e circulação de obras negras no cenário editorial. A autora aponta avanços na visibilidade de nomes como Conceição Evaristo e outros, bem como o surgimento de novas vozes nas periferias de São Paulo, contribuindo para ampliar a diversidade no mercado.
A escritora ressaltou que a diversidade na publicação não atende apenas a um propósito cultural, mas também a aspectos econômicos do setor, com impacto no lucro e na permanência de autoras negras em espaços de referência. O desempenho crítico e comercial têm ganhado fôlego nos últimos anos, segundo a percepção de Ana Maria.
Desafios persistentes
Líderes de coletivos, como a jornalista Waleska Barbosa, destacaram ainda obstáculos como custo de publicação, circulação, distribuição e crítica especializada. Embora haja avanços, ainda ocorrem episódios de racismo que impactam a trajetória de escritoras negras, conforme lembrado por participantes do evento.
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