- Carlo Ginzburg, historiador italiano de 85 anos, aborda o tema das fake news em ensaio publicado no Brasil e em conferência realizada em Budapeste em 2019.
- Em entrevista à Folha, ele aponta semelhanças entre Mussolini e Donald Trump, destacando a manipulação de massas e o uso de recursos tecnológicos de cada época.
- O pesquisador defende a leitura lenta como resposta à velocidade da internet, defendendo a combinação entre leitura cuidadosa e verificação de informações.
- Ginzburg faz ligação entre teorias de Maquiavel, Tácito e Freud para explicar por que as pessoas acreditam em notícias falsas e como isso se conecta ao fascínio pelo poder.
- O historiador afirma ter identificado sinais da cartilha fascista no discurso de Trump durante visitas a Chicago em 2015, reforçando que o populismo se transforma, mas permanece.
Carlo Ginzburg, historiador italiano de 85 anos, viu liga entre Trump e Mussolini em reflexão sobre desinformação. Em entrevista à Folha, ele comenta o tema de um ensaio recém-publicado no Brasil.
O texto, resultante de uma conferência de 2019 na Budapeste e revisitado na revista Serrote, analisa a circulação de fake news sob a lente de Tácito, Maquiavel e Freud. O foco é a leitura crítica diante da rapidez da internet.
Ginzburg relata ter identificado sinais de cartilha fascista no discurso do ex-presidente americano, observado em Chicago, em 2015, durante visitas em campanha. O historiador destacasimilaridades na forma de mobilizar massas, ainda queprecisado de contextos diferentes.
Fake news e leitura lenta
O autor defende uma abordagem distanciada para investigar notícias falsas, enfatizando o uso de leitura lenta como ferramenta analítica. Segundo ele, essa prática busca superar aparências para alcançar compreensão mais profunda da realidade.
O pesquisador recorre a conceitos de estranhamento, presente em parte de sua obra, para explicar como o público pode acreditar em informações enganosas. Ele cita também a expressão inglesa wishful thinking, associada ao desejo que influencia a percepção.
Ginzburg aponta que as ferramentas de divulgação mudam conforme a época, mas o impulso de explorar e explorar falhas da comunicação persiste. Em suas palavras, a leitura cuidadosa deveria ganhar espaço nas escolas para enfrentar o fluxo de conteúdos online.
Conexões históricas e atuais
O historiador compara Mussolini e Trump na habilidade de manipular emoções e tecnologias da comunicação de cada tempo. Enquanto o italiano explorava o rádio, o americano se utiliza da internet para ampliar impacto e alcance de mensagens.
Apesar das diferenças políticas, o argumento central é a persistência de formas de populismo que recorrem a recursos emocionais para mobilizar grandes plateias. Ginzburg ressalta a importância de compreender esses mecanismos para combater a desinformação.
A obra de Ginzburg, incluindo publicações como O Queijo e os Vermes, continua a influenciar seu modo de discutir fatos e narrativas históricas. O ensaio Fake news? reúne reflexões sobre como ler entrelinhas e entender a circulação de rumores e mentiras.
Fontes e referências
O material de referência de Ginzburg inclui pensadores de várias épocas, como Tácito e Freud, que ajudam a contextualizar comportamentos de credulidade e autopreservação diante de informações dúbias. As referências aparecem tanto em entrevistas quanto em seus textos acadêmicos.
A entrevista à Folha foi publicada como parte de uma cobertura sobre a relação entre história e desinformação. As fontes citadas pelo historiador também aparecem em reportagens sobre figuras históricas associadas ao fascismo e ao populismo contemporâneo.
Perspectivas para o ensino
Ginzburg defende que o combate às fake news depende de uma educação voltada para a leitura crítica e analítica. A ideia é ensinar a leitura lenta como ferramenta de compreensão, aliando tempo de estudo à velocidade da informação.
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