- O Parlamento do Nepal foi incendiado durante protestos contra a restrição de redes sociais e os privilégios de filhos de políticos.
- Na Indonésia, a morte de um entregador em confronto com a polícia gerou revolta em Jacarta, apesar das concessões do governo.
- Nas Filipinas, campanhas online expuseram políticos e levaram à mobilização nas ruas de Manila.
- No Peru, estudantes enfrentaram gás lacrimogêneo em protesto contra a reforma das pensões, resultando na queda da aprovação da presidente.
- Em Madagascar, a falta de água e energia provocou protestos que resultaram em 22 mortes e na dissolução do gabinete.
- A Geração Z, com idades entre 13 e 28 anos, utiliza inteligência artificial e redes sociais para organizar protestos e criar slogans rapidamente.
- Símbolos como a caveira do anime *One Piece* e hashtags como #SEAblings ajudam a unir diferentes causas sob uma identidade comum.
- A mobilização é caracterizada por uma organização mais sofisticada, com uso de plataformas como Discord e TikTok.
- Especialistas destacam que a juventude busca um futuro melhor, mas enfrenta desafios como a falta de liderança clara e um projeto político unificado.
- Apesar das vitórias, como a queda de líderes, a violência e a ambiguidade dos processos de mudança permanecem.
O Parlamento do Nepal em chamas. Estudantes peruanos enfrentando gás lacrimogêneo em Lima. Jovens indonésios correndo de caminhões de água da polícia. Em Madagascar, cartazes improvisados pedem: *“Queremos viver, não sobreviver.”* Cenas distantes, separadas por milhares de quilômetros, mas unidas por um fio comum: a Geração Z está colocando governos contra a parede. De Katmandu a Antananarivo, uma onda de levantes juvenis varre o Sul Global, conectada pela estética digital e pela urgência de viver melhor.
**O que moveu cada protesto?**
1. Nepal: a raiva contra os *nepo kids* (filhos de políticos acusados de perpetuar privilégios) explodiu quando o governo tentou restringir redes sociais. Jovens incendiaram o Parlamento e derrubaram o premiê.
2. Indonésia: a morte de um entregador em confronto com a polícia expôs os luxos de parlamentares e incendiou Jacarta. Nem as concessões do presidente Prabowo acalmaram as ruas.
3. Filipinas: a revolta nasceu online: campanhas de *lifestyle check* expuseram políticos e viralizaram em memes, até transbordarem para as ruas de Manila.
4. Peru: a reforma das pensões reativou frustrações históricas. Estudantes e trabalhadores enfrentaram gás lacrimogêneo em Lima, e a aprovação da presidente Boluarte despencou.
5. Madagascar: a falta de água e energia levou jovens às ruas. A repressão deixou 22 mortos e forçou a dissolução do gabinete.
6. Marrocos: protestos em 11 cidades denunciaram a contradição entre estádios para a Copa de 2030 e hospitais precários. Mais de 100 jovens foram presos.
**O que marcou as mobilizações?**
No Nepal, onde o movimento ficou conhecido como “Gen Z Rebels”, jovens usaram inteligência artificial para criar slogans e memes em tempo recorde, que logo cruzaram fronteiras virtuais.
Os símbolos também importam. Em diferentes protestos, bandeiras improvisadas carregavam a caveira de *One Piece*, anime japonês que se tornou ícone visual da rebeldia. Essa estética compartilhada ajuda a costurar causas distintas sob a mesma identidade geracional.
As hashtags fazem o resto do trabalho. Termos como #SEAblings (trocadilho com “irmãos do Sudeste Asiático”) se espalham e criam um senso de solidariedade regional. Imagens de violência policial em Jacarta ou de jovens mortos em Antananarivo viralizam instantaneamente, inflamando a revolta em outros cantos do mundo.
Os protagonistas desses levantes têm, em média, entre 13 e 28 anos. O perfil é distinto de outras ondas de contestação juvenil, como a Primavera Árabe ou o Occupy Wall Street. Se antes o uso das redes era mais espontâneo, hoje há sofisticação: protestos são organizados em servidores de Discord, campanhas ganham vida em vídeos curtos no TikTok e até slogans são criados com IA, viralizando em segundos.
**O que diferencia a Geração Z?**
Pesquisas e especialistas ajudam a explicar. O estudo *Sonho Brasileiro* (BOX1824, 2011), apesar de ter mais de uma década, já mostrava que a atuação coletiva contemporânea deixava de se restringir a modelos revolucionários clássicos, assumindo novas formas de engajamento digital.
O jornalista Dal Marcondes, mestre em Modelos de Negócios em Jornalismo Digital, escreveu em seu artigo “Os meios de comunicação e a juventude”, no Observatório da Imprensa que *“o jovem não é notícia para os meios de comunicação considerados ‘adultos’ ou formadores de opinião, como os grandes jornais ou telejornais de redes. Neste caso, o jovem é visto como agente de problemas e conflitos, e não como parte substancial da sociedade brasileira”.*
A juventude, no entanto, sempre lutou por um amanhã melhor. Como lembra a historiadora Mary Del Priore, viver a juventude é sempre estar em tensão entre normas impostas e formas de resistência. Com a Geração Z não seria diferente.
**E o que acontece agora?**
A questão não é se a revolta é real, mas se consegue sobreviver à própria chama. Se vai ultrapassar o instante da fúria ou se apagar com a mesma rapidez com que viraliza.
O saldo é ambíguo: há vitórias palpáveis, como a queda de líderes e a dissolução de governos. Contudo, o rastro de forte violência e danos a patrimônios públicos e privados marca a ambiguidade desses processos. Especialistas alertam que a ausência de uma liderança clara e de um projeto político unificado, embora facilite a mobilização horizontal, pode se tornar um obstáculo para negociar avanços institucionais e consolidar mudanças duradouras.
Nesse horizonte incerto, os versos de Belchior em *“Como Nossos Pais”* soam como presságio. A juventude que sonha reinventar o mundo carrega também a angústia de repetir os padrões que jurou destruir.
Mas o refrão que atravessa décadas é o da resistência, não o da rendição. Se a juventude de hoje se veste de hashtags e caveiras de anime, sua demanda é antiga: um futuro melhor. Porque, no final, eles ainda querem mais do que apenas sobreviver. Querem viver.
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