- Lula condenou a prisão de Nicolás Maduro e chamou a postura dos Estados Unidos de afronta à soberania, mantendo a leitura de continuidade da política externa do PT em relação à Venezuela.
- A relação entre PT e chavismo dura mais de duas décadas, com apoio político, recebimento de Maduro em Brasília e investimentos bilionários, como a Refinaria Abreu e Lima.
- Houve envolvimento direto do PT na campanha chavista de 2012, com articulações para fortalecer o regime; telegrama de embaixada brasileira relata declarações de Lula sobre Chávez e eleições.
- Em 2023, Lula reabilitou diplomáticas a Maduro e o recebeu no Planalto; em 2024, o Brasil manteve tom de não condenação explícita de eleições venezuelanas, sob discurso de não intervenção.
- O calote venezuelano expôs custo financeiro ao Brasil: dívida superior a R$ 10 bilhões, financiamentos do BNDES com garantia do Fundo de Garantia à Exportação, e custos com a Refinaria Abreu e Lima, que chegou a cerca de US$ 18 bilhões.
Ao condenar a prisão de Nicolás Maduro e classificar a ação dos EUA como uma afronta à soberania, Lula reafirma uma linha histórica do PT em relação à Venezuela. O tom indica tolerância diplomática diante de setores autoritários no país vizinho.
A postura não é episódica: se estende por mais de duas décadas, desde a aliança entre o PT e o chavismo, que atravessou governos, crises políticas e denúncias de violações de direitos humanos na Venezuela. O tema permanece ativo na política externa brasileira.
Desde o governo Lula, a Venezuela foi tratada como aliada estratégica na região. A afinidade com o chavismo levou o PT a relativizar alertas sobre autoritarismo, em nome de integração regional, soberania e oposição aos EUA.
Ao longo dos anos, esse alinhamento se manifestou em apoio público a líderes chavistas, recepção de Maduro em Brasília e forte vínculo econômico, com investimentos como a refinaria Abreu e Lima. Críticas a fraudes eleitorais foram mais contidas.
Em 30 de setembro de 2005, Lula elogiou Chávez e criticou a oposição venezuelana, em meio a declarações que sinalizavam uma leitura menos confrontacional do chavismo. A fala ficou marcada como símbolo da linha pró-regime.
Entre 2005 e 2007, Lula descreveu a relação Brasil-Venezuela como estratégica, com divergências mínimas. Ambos os governos avançaram na criação de mecanismos de integração regional, como a Unasul, fortalecendo a parceria sul-americana.
Apoio direto à reeleição de Chávez
O patamar do envolvimento foi além de posicionamentos diplomáticos: houve apoio estratégico à reeleição de Chávez em 2012. Documentos e reportagens indicam articulações no Brasil, incluindo participação de quadros do PT na campanha chavista.
Um telegrama da Embaixada da Venezuela no Brasil, divulgado pela Veja, descreve Lula em São Paulo, em 2011, dizendo confiar em Chávez e recear sua derrota. O ex-presidente chegou a comparar uma possível perda com o fim da esquerda latino-americana.
Lula também discutiu ações para fortalecer o chavismo politicamente, defendendo a adesão plena da Venezuela ao Mercosul e mobilizando assessores próximos para a campanha de Chávez. O texto cita João Santana entre os envolvidos.
Dados financeiros revelaram que, em 2017, a esposa de Santana, Mônica Moura, afirmou recebimentos de cerca de US$ 10 milhões por serviços ao chavismo, com origem no entorno venezuelano. Esses pagamentos incluíram campanhas de Chávez e Maduro.
Para o jornalista Leonardo Coutinho, há casos documentados de apoio ativo ao regime venezuelano em momentos de isolamento internacional, como a entrada da Venezuela no Mercosul, mesmo com regras democráticas questionadas.
Com Maduro, Lula relativizou a democracia
A aproximação com Maduro antecede o retorno de Lula ao Planalto, em 2023. Em 2013, Lula gravou vídeo apoiando Maduro como herdeiro de Chávez, sugerindo continuidade do projeto chavista.
Em 2023, Lula reabilitou diplomaticamente Maduro, recebendo o venezuelano em Brasília com honras de chefe de Estado. O governo minimizou críticas internacionais, afirmando que a Venezuela enfrenta uma narrativa externa.
Em 2024, o Itamaraty manteve a linha de não interferência, defendendo diálogo para mediação. Críticos veem a postura como blindagem do regime, diante de denúncias de repressão e fraude eleitoral.
Para o cientista Elton Gomes, a política externa dos governos petistas comprometeu o papel do Brasil como estabilizador regional. Ele aponta que a posição de 2024 foi ambígua diante de eleições venezuelanas contestadas.
Críticas à oposição venezuelana, em março de 2024, trouxeram repercussões. Lula disse que a líder opositora não deveria ficar chorando, provocando reação internacional e gerando debates sobre tratamento dado ao chavismo versus à oposição.
Em março de 2024, após a repercussão, Lula revisou o discurso, classificando como grave o impedimento da candidatura opositora e afirmando surpresa com a decisão, reforçando que Maduro não deveria temer a participação de um opositor forte.
Calote venezuelano e custo financeiro
O Brasil registra dívida com a Venezuela superior a R$ 10 bilhões, decorrente de financiamentos entre 2007 e 2015 via BNDES, com garantia do FGE. Quando a Venezuela deixou de pagar, o dinheiro foi coberto pelo Tesouro.
O governo sustenta que sanções impostas a Maduro criaram entraves para transferências internacionais, dificultando a quitação. O chanceler Mauro Vieira ressaltou que a diplomacia busca solução por meio do diálogo, sem medidas de pressão pública.
A dívida permanece em negociação, com o Itamaraty destacando a importância de manter a relação estável, mesmo diante de sanções e dificuldades financeiras internacionais.
Refinaria Abreu e Lima como símbolo
A Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), simbolizou a cooperação entre Brasil e Venezuela. Anunciada em 2003, a obra não saiu do papel, levando a custos elevados e atrasos que deram origem a questionamentos na Lava Jato.
Investimentos chegaram a US$ 18 bilhões, com a Petrobras arcando sozinha após a PDVSA não aportar recursos. A unidade inaugurou parcialmente em 2014, operando com metade da capacidade planejada.
O projeto também entrou nos registros da Lava Jato, envolvendo suspeitas de superfaturamento e propinas. O Tribunal de Contas da União apontou sobrepreços, alimentando o debate sobre a parceria.
Na terceira década, em 2025, a Petrobras assinou contratos para ampliar a refinaria, elevando a produção, em meio a críticas sobre a eficiência da colaboração com a Venezuela.
Críticas à oposição expõem assimetria na posição de Lula
A defesa de Maduro contrastou com críticas à oposição venezuelana. Em 2024, Lula comentou a exclusão de María Corina Machado, gerando reação de opositores e cobertura internacional sobre a comparação com processos democráticos no Brasil.
A oposição reagiu, e Lula declarou que houve erro ao não reconhecer rapidamente a gravidade da decisão venezuelana. Em seguida, manteve o tom de defesa de diálogo como caminho para a solução política no país vizinho.
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