Com informações de Luiz Fernando Toledo, da BBC News em Londres. Texto: portal Tela. “Se eu tivesse desobedecido a minha mãe e ido para Nova York, o que teria acontecido comigo?” A pergunta acompanha Gláucia Fekete há mais de duas décadas. Em 2004, aos 16 anos, a gaúcha começava a trilhar os primeiros passos na […]
Com informações de Luiz Fernando Toledo, da BBC News em Londres. Texto: portal Tela.
“Se eu tivesse desobedecido a minha mãe e ido para Nova York, o que teria acontecido comigo?” A pergunta acompanha Gláucia Fekete há mais de duas décadas.
Em 2004, aos 16 anos, a gaúcha começava a trilhar os primeiros passos na moda quando recebeu um convite tentador: participar de um concurso internacional no Equador que prometia 300 mil (cerca de 1,54 milhão de dólares) em prêmio e contratos no exterior. A etapa seguinte da carreira seria Nova York.
A proposta vinha de Jean-Luc Brunel, agente francês que, anos depois, seria acusado de recrutar meninas para a rede de exploração sexual associada a Epstein. À época, porém, ele ainda não era alvo formal de investigações.
O concurso no Equador
Desconfiada, a mãe de Gláucia, Bárbara Fekete, hesitou. Para convencê-la, Brunel viajou até Santa Rosa (RS) e passou uma tarde com a família. Segundo Gláucia, ele prometeu que a filha venceria o concurso e reforçou as oportunidades internacionais que poderia oferecer.
A jovem embarcou para Guayaquil para disputar o Models New Generation, evento que reuniu cerca de 50 adolescentes de 15 a 19 anos e teve ampla cobertura local. A vencedora foi a brasileira Aline Weber, então com 15 anos.
Gláucia não ganhou o prêmio. Já no Equador, foi informada de que tinha dois centímetros a mais do que o permitido no quadril e, por isso, ficaria fora da premiação.
Também estranhou a dificuldade de se comunicar com a família, já que o combinado tinha sido diferente: ligações e envio frequente de vídeos.
Ainda assim, recebeu uma nova proposta: seguir direto para os Estados Unidos, com despesas pagas, para “participar de shows” e castings. Bastava a autorização da mãe.
A resposta da mãe foi incisiva: “Não, nem pensar”. Bárbara Fekete queria que a filha retornasse e terminasse os estudos.
Na época, Gláucia sentiu raiva; hoje, agradece: “Minha mãe me salvou”.
O que se sabia na época e o que se descobriu depois
Em 2004, não havia acusações formais contra Epstein. As primeiras investigações começariam no ano seguinte; ele se declararia culpado em 2008 por aliciar menores para a prostituição de menor de idade. Voltaria a ser preso em 2019, ano em que morreu na cadeia.
Brunel era aliado de Epstein desde os anos 1980. Ele seria preso na França em 2020, acusado de estupro e tráfico sexual, e morreria em 2022 sem ter sido julgado.
Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA mostram que Epstein esteve em Guayaquil em 24 de agosto de 2004, um dia antes da final do concurso. E-mails citam reserva de hotel, van e abastecimento de aeronave na cidade. Não há menção direta ao evento nos papéis.
Há também registro de que ao menos uma modelo menor de idade que participou do concurso viajou no avião de Epstein naquele ano.
Relatos paralelos
Uma ex-modelo europeia que participou do evento, identificada aqui como Laura, disse que tudo parecia “organizado e profissional”, mas que o comportamento de Brunel chamava atenção.
Segundo ela, o agente circulava principalmente entre brasileiras muito jovens. “Ele parecia saber exatamente quais meninas eram mais vulneráveis”, afirmou. Em Nova York, Laura diz ter ouvido relatos de modelos da agência Karin Models, então comandada por Brunel, sobre viagens à ilha de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas.

Gláucia Fekete foi convidada para participar de um concurso de modelo no Equador, onde Jeffrey Epistein esteve. Imagem: BBC Brasil.
Gláucia afirma que não viu nada acontecer. Por outro lado, diz que, na ocasião do concurso, Brunel costumava circular perto do grupo, dizendo: “As brasileiras, ah, meu Deus, as brasileiras”. Também havia uma menina muito jovem à qual se referiam como “a namorada do Jean-Luc (Brunel)”.
Em depoimento à Justiça da Flórida, em 2010, a ex-funcionária da agência MC2, Maritza Vasquez, afirmou que Brunel “levou garotas” a Epstein durante viagem ao Equador. A defesa do francês alegou que ela teria sido demitida por desvio de recursos e que suas declarações seriam falsas.
Outros documentos indicam que a agência foi usada para emitir vistos de trabalho pagos por Epstein, permitindo que jovens viajassem aos EUA. A BBC News Brasil identificou ao menos um caso semelhante envolvendo uma brasileira.
Brasil no radar
Depoimentos reunidos nos arquivos americanos também mencionam viagens de Epstein e Brunel ao Brasil no início dos anos 2000. Segundo relatos, garotas brasileiras teriam sido levadas a festas na residência do bilionário, inclusive menores de idade.
Há ainda registros de conversas por e-mail, em 2016, sobre a possibilidade de criar um concurso de modelos no Brasil para atrair jovens do interior. O plano acabou não avançando.
Após reportagens sobre contatos e pagamentos feitos por Epstein a brasileiras, o Ministério Público Federal abriu investigação para apurar eventual rede de aliciamento no país.
A promessa de visibilidade
Em 2014, ao solicitar um visto O-1 para os EUA, Brunel apresentou o Models New Generation como prova de sua relevância profissional, afirmando que o concurso teria sido transmitido por diversos canais, incluindo a TV Globo. A emissora informou não ter registro da transmissão.
O livramento
Hoje, Gláucia trabalha com mentoria e estratégia digital. Só anos depois, ao ser procurada por jornalistas que investigavam o caso Epstein, entendeu a dimensão do contexto em que esteve inserida.
Ao relembrar a decisão da mãe, a leitura é outra.
“Eu achava que tinha perdido uma grande oportunidade. Agora vejo que foi um livramento.”
Ao saber das acusações, anos depois, Bárbara relembrou o pressentimento que teve na época: “Eu sentia que aquilo não estava certo.” Duas décadas depois, mãe e filha seguem com a mesma certeza: o amor e o cuidado de uma mãe.
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