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EUA e Irã: entenda o conflito que mistura bombas, religião, e pode levar a uma guerra

Negociações indiretas em Genebra tentam destravar um acordo sobre o programa nuclear iraniano, mas o impasse vai além do urânio e também envolve diferenças ideológicas.

Foto: Reprodução/Reuters

As negociações entre Estados Unidos e Irã voltaram ao centro das discussões nesta quinta-feira (26), em Genebra, sob mediação de Omã.  Participam o enviado especial americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, além do chanceler iraniano Abbas Araghchi.  O objetivo é discutir limites ao programa nuclear iraniano e, em troca, a […]

As negociações entre Estados Unidos e Irã voltaram ao centro das discussões nesta quinta-feira (26), em Genebra, sob mediação de Omã. 

Participam o enviado especial americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, além do chanceler iraniano Abbas Araghchi. 

O objetivo é discutir limites ao programa nuclear iraniano e, em troca, a possibilidade de alívio das sanções impostas por Washington.

O problema é que a conversa nuclear é só a superfície. O embate entre as duas nações envolve décadas de desconfiança, disputas regionais, religião e terrorismo  que faz o conflito transbordar para além das fronteiras iranianas.

O que está acontecendo atualmente entre EUA e Irã

Trump exige limites mais rígidos às atividades nucleares do Irã e mantém a ameaça de ataque militar se as conversas fracassarem. 

A leitura americana é que o avanço do programa pode ampliar o poder de fogo de um adversário histórico, mesmo com Teerã dizendo que não busca uma bomba.

Do lado iraniano, Araghchi afirma que o país “em hipótese alguma desenvolverá uma arma nuclear”, mas insiste que não abrirá mão do direito à tecnologia nuclear civil. 

A proposta discutida com mediadores costuma girar em torno de um ponto central: o Irã quer manter o direito de enriquecer urânio, aceitando limites de nível e de fiscalização, em troca de alívio de sanções.

Entenda o motivo do conflito entre os dois países

Enriquecimento de urânio

O enriquecimento é a linha vermelha porque separa usos civis e capacidade militar. Quanto mais alto o nível e maior o estoque, menor o tempo necessário para chegar ao patamar de uma arma caso o regime decida dar esse passo.

A Agência Internacional de Energia Atômica relata um acúmulo de 440 kg de urânio enriquecido a 60%, volume tratado como suficiente para aproximadamente 15 bombas de baixa potência. 

Esse dado virou argumento para defensores nos EUA e para aliados como Israel. Teerã, por sua vez, sustenta que o programa é pacífico e rejeita abrir mão da infraestrutura nuclear.

Sanções: a pressão que empurra a crise para dentro do Irã

Sanções são a principal ferramenta de Washington e um dos motores da crise interna iraniana. A pressão econômica se intensificou com restrições à capacidade do país de exportar petróleo e gás, afetando a base de sustentação financeira do Estado.

Em 2015, o acordo nuclear firmado no governo Obama abriu um caminho de inspeções e restrições em troca do fim de sanções e liberação de cerca de US$100 bilhões congelados (cerca de R$ 500 milhões).

 Em 2018, Trump retirou os EUA do acordo alegando que o Irã ganhava tempo rumo à bomba, retomando coerção econômica e ameaça militar.

O desgaste se soma a ondas de protestos internos, com manifestações fortes em 2022 e novos protestos na virada para 2026. 

Mísseis balísticos: o segundo impasse

Além do nuclear, Washington quer restrições ao programa de mísseis balísticos, demanda associada à segurança de aliados regionais, sobretudo Israel. 

Para o Irã mísseis são parte da estratégia de sobrevivência do regime e do equilíbrio de poder regional.

A troca de fogo direta recente com Israel deixou isso explícito. Houve um confronto de 12 dias em junho de 2025, com ataques israelenses e resposta iraniana com centenas de mísseis.

Religião e poder andam juntos

O Irã é uma teocracia. Após a Revolução Islâmica de 1979, o líder supremo, um aiatolá, passou a concentrar a autoridade política e religiosa, com influência direta sobre as Forças Armadas e decisões estratégicas. 

O país se organiza sob a doutrina do Velayat e Faqih, a “tutela do jurista islâmico”, que coloca o clero no topo do Estado.

Em crises, decisões sobre escalar ou conter ações militares passam por esse núcleo, em articulação com a Guarda Revolucionária.

Isso faz com que negociações não sejam apenas técnicas, pois também envolvem legitimidade ideológica, sobrevivência do regime e controle interno.

Terrorismo e guerra por procuração

A influência iraniana na região não se limita ao território nacional. Teerã sustenta aliados armados em diferentes frentes e se apresenta como líder de uma “frente de resistência” contra Israel e o que chama de dominação ocidental.

Essa rede inclui grupos apontados por países ocidentais como terroristas, como o Hamas, mesmo com a diferença religiosa entre um movimento sunita e um Irã majoritariamente xiita. O inimigo comum aproxima alianças quando convém.

A lógica é criar camadas de proteção fora das fronteiras: aliados no Líbano, em Gaza, no Iraque, na Síria e no Iêmen elevam o custo de um confronto e permitem pressão constante sobre Israel e sobre a presença militar americana sem que o Irã precise entrar imediatamente numa guerra aberta. 

O apoio costuma envolver treinamento, armas, tecnologia, logística e redes financeiras indiretas, frequentemente associadas à atuação externa da Guarda Revolucionária.

Linha do tempo da rivalidade entre EUA e Irã

A desconfiança já é antiga. Em 1953, um golpe apoiado por EUA e Reino Unido derrubou um governo iraniano e fortaleceu a monarquia alinhada ao Ocidente. Em 1979, a Revolução Islâmica rompeu de vez a relação, consolidada pela crise dos reféns na embaixada americana.

Nos anos seguintes, a hostilidade se espalhou por guerras e episódios traumáticos. O Irã enfrentou o Iraque entre 1980 e 1988, enquanto os EUA apoiavam Saddam Hussein. 

Em 1984, um atentado em Beirute matou 241 fuzileiros americanos. Em 1988, um navio americano derrubou por engano um avião comercial iraniano, matando 290 pessoas, trauma que segue vivo no país.

Nos anos 2000, o tema terrorismo ganhou peso global após o 11 de setembro, e em 2002 George W. Bush incluiu o Irã no “eixo do mal”. A partir daí, o nuclear se consolidou como eixo permanente de tensão.

O acordo de 2015 abriu um canal diplomático, mas a saída dos EUA em 2018 fechou esse caminho e acelerou novamente o programa iraniano. 

Em 2020, a morte de Qasem Soleimani, comandante da Força Quds, elevou o risco de confronto direto.

 Em 2025, a guerra de 12 dias entre Israel e Irã colocou os dois países em choque aberto, com envolvimento americano como aliado central de Israel e com ações contra alvos ligados ao programa nuclear iraniano.

O que pode acontecer agora

Há três cenários principais no curto prazo.

  1. Acordo limitado para ganhar tempo: limites verificáveis para enriquecimento e inspeções em troca de algum alívio de sanções, sem desmonte total do programa.
  2. Impasse e ataques pontuais: uma ação militar direcionada a instalações estratégicas, com risco de retaliação iraniana contra bases americanas e aliados.
  3. Escalada regional: ativação ampla de aliados armados e aumento de confrontos indiretos, capaz de arrastar outros países e pressionar rotas estratégicas.

O termômetro das próximas rodadas passa por três pontos: até onde os EUA vão insistir no fim completo do programa, se o Irã aceitará reduzir patamar e estoque com fiscalização robusta, e se mísseis e rede de aliados armados entrarão de fato na mesa sem travar tudo.

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