- A ANF, subsidiária da Framatome, quer adaptar a fábrica de Lingen para fabricar elementoss de combustível hexagonais com licença da Rosatom/TVEL, operação que é objeto de grande controvérsia política e jurídica.
- O objetivo seria reduzir a dependência europeia da Rússia, mas o plano depende justamente de tecnologia e participação russas, o que complica o descolamento.
- O processo de licenciamento começou em março de 2022; formalmente cabe a Baixa Saxônia, mas a decisão final é do governo federal, com relatos de recomendação a aprovação condicionada.
- A oposição é intensa: mais de 11 mil entidades e pessoas apresentaram objeções; o titular ambiental de Baixa Saxônia, Christian Meyer, tem ceticismo aberto.
- No contexto de sanções, o pacote da União Europeia que atinge diretamente a Rosatom foi apresentado em fevereiro de 2026, mas a aplicabilidade ao JV ANF–TVEL ainda é juridicamente incerta; autoridades europeias acompanham o tema.
A fábrica de Lingen, na Baixa Saxônia, pretende produzir elementos de combustível para reatores de design russo, em parceria com a Rosatom, estatal russa. A iniciativa é controversa do ponto de vista político e legal, em meio a sanções e debates sobre dependência energética.
A Advanced Nuclear Fuels GmbH (ANF), divisão da Framatome, fabrica conjuntos de combustível na Europa desde 1979. Com o encerramento nuclear alemão em 15 de abril de 2023, o mercado doméstico se reduziu consideravelmente, afetando a atuação da empresa.
Antes mesmo do desligamento, a ANF iniciou uma linha de produção de conjuntos hexagonais para reatores PWR soviéticos (VVERs), ainda ativos em países como República Tcheca, Eslováquia, Bulgária, Hungria e Finlândia. Esses operadores já assinaram contratos com fornecedores alternativos.
A via para reduzir dependência passa pela Rússia
O ponto de partida é um contrato de licença assinado em 2021 entre ANF e Rosatom e sua subsidiária TVEL. A ANF protocolou a aprovação regulatória ao Ministério do Meio Ambiente da Baixa Saxônia em março de 2022, poucos meses após a invasão da Ucrânia. O processo de aprovação é complexo e politicamente sensível.
Formalmente, a Baixa Saxônia tem responsabilidade, mas o governo federal detém o poder final de decisão. Em fevereiro de 2026, a imprensa informou que o governo federal recomendou à Baixa Saxônia aprovar com condições.
Reação e posição oficial
O Ministério Federal do Meio Ambiente não comentou detalhes do processo. O titular ambiental do estado, Christian Meyer, criticou o pleito, afirmando que a mudança para produção com envolvimento russo gera preocupações de segurança interna e externa.
Mais de 11 mil pessoas e organizações apresentaram objeções por escrito, um número incomum em licenças nucleares. Analistas apontam que a Rosatom controla uso civil e militar da energia nuclear russa, incluindo a usina de Zaporizhzhia desde março de 2022.
O plano e as dúvidas técnicas
Para Framatome, a proposta aumenta a segurança energética da Europa Oriental. A produção em série não ficaria pronta antes de 2030; até lá, a ANF dependeria da licença da Rosatom. Em Lingen, máquinas já estariam instaladas e cerca de 20 especialistas russos teriam transferido o equipamento para a equipe em abril de 2024.
O Ministério de Meio Ambiente da Baixa Saxônia contesta: a produção com tecnologia russa não reduziria a dependência de combustível russo. Como alternativa, aponta a Westinghouse, que já fabrica conjuntos hexagonais para reatores na Europa Oriental.
Controvérsia política e geopolítica
Críticos afirmam que a configuração do projeto é uma manobra para contornar resistência política. Segundo Vladimir Slivyak, porta-voz da organização ambiental russa Ecodefense, a operação depende de Rosatom, apenas reembalando a relação com a Rússia.
Há a percepção de que a parceria seria uma forma de contornar blocos políticos: um desvio da cooperação direta na Alemanha para uma entidade francesa, mantendo a participação russa.
Importação de urânio e sanções
Dados da NDR indicam que a Rússia forneceu cerca de 68,6 toneladas de urânio à planta de Lingen em 2024, aumento de 66% frente a 2023. Um estudo conjunto da Bruegel e DiXi Group aponta que a UE importou mais de 700 milhões de euros em urânio russo em 2024.
A 20ª rodada de sanções da UE, proposta em fevereiro de 2026, abriu a possibilidade de restringir contratos com Rosatom e impor proibição de importação de urânio russo. Resta saber se o acordo ANF–TVEL se enquadra nessa nova leva de medidas.
Contexto regulatório e próximos passos
A decisão final envolve o governo federal, ainda que o processo seja conduzido pela Baixa Saxônia. O governo federal pode instruir autoridades estaduais. A Comissão Europeia mencionou uma futura regulação para reduzir importações de material nuclear russo, ainda em andamento.
A situação em Lingen reflete um problema mais amplo: a dependência de tecnologia e suprimentos russos no setor nuclear europeus, com implicações de segurança e de política energética. O desfecho dependerá de decisões regulatórias nacionais e europeias nas próximas semanas.
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