- Um post viral compara a conquista portuguesa de Hormuz, em 1515, com a operação dos EUA contra o Irã, misturando fatos e exageros, conforme historiadores ouvidos pela Euronews.
- A expedição portuguesa envolveu 27 navios, cerca de 1.500 portugueses e 600–700 indianos, sob o comando de Afonso de Albuquerque, e estabeleceu domínio sobre Hormuz até 1622.
- O domínio não foi sobre todo o Golfo Pérsico; houve resistência e comércio de arabos e persas, e a ideia de monopólio comercial entre Arábia e Índia é contestada.
- Os custos da operação dos EUA variam conforme a fonte: cerca de $18 bilhões até março, com estimativas entre $22,3 bilhões e $31 bilhões nas cinco semanas seguintes; haveria também despesas diárias com equipamentos destruídos.
- As consequências incluem tensões diplomáticas, impactos em aliados do Golfo, interrupções em infraestrutura energética e o estreitamento do Estreito de Hormuz, com diferenças estratégicas relevantes entre as ações portuguesas no século XVI e a intervenção dos EUA hoje.
O post viral nas redes sociais traça paralelos entre a operação militar dos EUA contra o Irã e a conquista de Hormuz pelo Império Português no século XVI. Segundo especialistas ouvidos pela Euronews, a comparação mistura fatos e exageros.
A peça online afirma que Portugal assegurou controle duradouro sobre o Estreito de Hormuz em 1515 com muito menos recursos que os EUA empregam hoje contra o Irã, sem causar o mesmo abalo econômico. Essa leitura é contestada por historiadores.
Segundo Rui Manuel Loureiro, a expedição de 1515 envolveu 27 navios, com cerca de 1.500 portugueses e 600 a 700 indianos. A posição de Albuquerque levou à ocupação de Hormuz, que durou até 1622, quando prevaleceu uma aliança persa-inglês.
Entretanto, muitos elementos do post são considerados exageros ou anacrônicos. A permanência portuguesa no Golfo durou aproximadamente 107 anos, confinada à ilha e a pequenas dependências, não ao Golfo inteiro.
Não houve domínio total do Golfo, lembra Loureiro. O tráfego local continuou a ocorrer com navios árabes e persas. A ideia de um monopólio comercial entre Arábia e Índia também é duvidosa, por envolver várias embarcações que escaparam ao controle luso.
Contexto histórico e comparação
A visão de Albuquerque era assegurar o controle da ilha de Hormuz, sem intenção de atacar a Pérsia, um estado continental relevante. O cenário atual envolve uma ofensiva sobre o Irã e a possível repercussão para Hormuz, apontam os especialistas.
Custos e dimensão da operação
O post cita 18 bilhões de dólares em custos até março. Especialistas trazem estimativas diferentes, com referência a dados de institutos norte-americanos que apontam gastos diários elevados com equipamentos destruídos. O total de aeronaves, navios e tropas varia conforme a fonte.
Dados do Atlantic Council indicam ao menos 134 aeronaves e 18 navios em abril. A Times revelou que, em março, mais de 50 mil tropas estavam na região, com deslocamentos para bases e navios em vários países do Golfo. A comparação entre números históricos e modernos exige cautela.
Consequências e leitura atual
Entre as consequências destacadas pelo post estão crise energética global, disrupção econômica e tensões diplomáticas. Os especialistas ressaltam também impactos regionais em países aliados do Golfo, com danos a infraestrutura crítica e interrupções na produção de energia.
Apesar de um cessar-fogo mediado, permanece uma situação de impasse. A economia global continua sensível a choques na região, destacam. Iran continua estudando cobrança de taxas para o tráfego no estreito, prática considerada irregular pelo direito internacional.
Lições históricas versus realidade atual
Para os especialistas, o cerne da diferença está na finalidade estratégica: Portugal visava o controle de Hormuz, enquanto os EUA atuam num conflito continental com o Irã. A tecnologia atual, mesmo com vantagem dos EUA, tem seus limites frente a cenários geopolíticos complexos.
A análise aponta que a comparação, embora curiosa, não substitui o entendimento das realidades históricas e contemporâneas. Fatos e números devem ser checados separadamente para evitar leituras simplificadas.
Entre na conversa da comunidade