- Memes com inteligência artificial entraram no front informacional do conflito entre EUA, Irã e Israel, com vídeos e animações que usam referências da cultura pop ocidental.
- Um vídeo iraniano em que Donald Trump é mostrado como boneco de Lego, produzido com IA pelo grupo Explosive Media, acumulou mais de 215 mil visualizações no X e foi amplamente republicado por embaixadas iranianas.
- Em resposta, a Casa Branca publicou memes que misturam imagens reais de batalhas com cenas de videogames e filmes, como Grand Theft Auto e Justice in the American Way, alcançando milhões de visualizações.
- Especialistas ressaltam que o Irã usa IA para criar propaganda culturalmente específica, aproveitando dados da cultura pop ocidental para impactar o público internacional.
- Desde o ataque de fevereiro, o Irã bloqueou o acesso à internet, com mais de cinquenta e quatro dias sem fontes independentes de informação, o que amplia o espaço para a guerra memética e a desinformação.
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã ganhou um novo front: a guerra de informações via memes e inteligência artificial. Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que a IA potencializa a desinformação em um cenário geopolítico já tenso.
Memes usam referências da cultura ocidental, como Lego, Divertidamente e filmes de ação, para moldar a opinião pública. Um vídeo iraniano com Trump em formato de boneco de Lego ganhou grande engajamento e espalhou-se por embaixadas do Irã ao redor do mundo.
A resposta dos EUA não ficou fora do campo digital. Memes e vídeos misturam cenas reais de combate com imagens de jogos como GTA, gerando uma narrativa híbrida. Um material intitulado Justice in the American Way acumulou cerca de 65 milhões de visualizações.
O que tem chamado a atenção é a capacidade iraniana de utilizar referências ocidentais em sua propaganda. Especialistas dizem que a IA, treinada com dados da cultura pop, facilita a produção de conteúdo culturalmente sintético, com tom próximo ao consumo ocidental.
Estratégia iraniana
Desde o ataque de fevereiro, o Irã bloqueou o acesso à internet no país. Dados da NetBlocks indicam mais de 54 dias sem acesso a fontes independentes sobre a guerra. Em análise, isso favorece o uso de mensagens consistentes voltadas ao público internacional.
Emma Briant, da Universidade de Notre Dame, afirma que a propaganda iraniana busca pressão sobre apoiadores de Trump tanto no âmbito internacional quanto no EUA. Ela destaca o uso de elementos musicais, animações e alusões a casos de alto impacto.
O grupo Explosive Media, responsável pelos vídeos, se apresenta como coletivo estudantil independente. Investigações do Guardian e da Al Jazeera indicam que ele recebe encomendas diretas de autoridades iranianas para a produção de conteúdo.
A estratégia passa pela arquitetura de modelos de linguagem treinados majoritariamente com dados ocidentais, que permitem produzir conteúdo com tom próximo ao consumidor americano ou europeu. A desregulação de IA promovida pelo governo dos EUA também é citada como fator que amplia esse uso.
Gamificação na Casa Branca
Do lado norte-americano, a Casa Branca adotou o que analistas chamam de “gamificação da guerra”. Vídeos oficiais combinam explosões reais com cenas de jogos e filmes, incluindo Call of Duty, Top Gun, Gladiator, Iron Man e Bob Esponja.
Em contraste, a propaganda iraniana mantém uma narrativa de vítima de agressão, enquanto a dos EUA aparece mais fragmentada e voltada a uma base específica de apoio. A expectativa é de que o Irã utilize a IA para ampliar seu alcance comunicacional.
Especialistas lembram que, historicamente, a propaganda de guerra exige validação de narrativas para o público. Luli Radfahrer, da USP, compara o uso atual de memes e IA a um mimeógrafo moderno, ferramenta de produção em massa para a propaganda.
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