- O GNL hoje representa quase metade das importações de gás da UE, antes era cerca de 20% em 2021.
- Atos de guerra e interrupções no Oriente Médio, principalmente por ataques que atingiram Ras Laffan no Catar, elevaram a incerteza sobre o fornecimento de GNL.
- Em meados de março, mísseis iranianos destruíram parte da planta catarina, reduzindo cerca de 17% da capacidade de produção do projeto e levando o complexo a ficar com 3% da produção global de GNL, segundo a pesquisadora Agathe Demarais.
- A QatarEnergy declarou força maior para suspender algumas entregas, e as ofertas globais de GNL estão cerca de 20% abaixo do nível de um ano atrás.
- Com a demanda competitiva e a alta de preços, a UE pode intensificar o uso de GNL dos EUA, considerar flexibilizar sanções sobre hidrocarbonetos russos ou acelerar redução de demanda e expansão de renováveis para enfrentar o aperto no curto prazo.
Após a crise energética causada pela guerra na Ucrânia, a Europa intensificou asubstituição do petróleo russo por gás natural liquefeito (GNL), principalmente de Noruega e Catar. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, a dependência ganhou mais riscos. Agathe Demarais, pesquisadora do ECFR, aponta que o GNL já responde por quase metade das importações da UE, frente a 20% em 2021.
Entretanto, ataques iranianos ao complexo Ras Laffan, no Catar, geram incertezas sobre o abastecimento. O gigante terminal de GNL, que abastece cerca de 20% do mercado global, teve três trens de liquefação danificados em março, reduzindo 17% da capacidade de produção do complexo e 3% da produção mundial. A recuperação pode levar anos.
A QatarEnergy declarou força maior, suspendendo algumas entregas. A queda de oferta global de GNL hoje fica em torno de 20% frente ao ano anterior, agravando a pressão de preços europeu. Empresas como Edison, na Itália, sofrem impactos nos contratos com o Catar, ainda que a Alemanha não dependa da importação qatari, mas sofra com o aumento de preços.
Opções para a UE
Demarais indica maior dependência do GNL americano, já que EUA respondem por quase 60% das entregas da UE. A perspectiva aponta para maior influência política dos EUA sobre a indústria europeia, com possível uso estratégico das compras de GNL.
Por outro lado, a UE pode considerar flexibilizar sanções aos hidrocarbonetos russos, dentro do RePowerEU. A proibição de contratos de GNL de curto prazo entrou em vigor em 25 de abril, com a eficácia total de contratos de longo prazo prevista para janeiro de 2027. O debate ocorre sob a pressão de governos e setor industrial.
A pesquisadora ressalta ainda gargalos de engenharia e tarifas nos EUA. Poucas empresas detêm know-how para grandes projetos de GNL, enquanto reparos em Ras Laffan podem levar de três a cinco anos. Assim, a oferta global tende a ficar mais lenta e cara.
Perspectivas de longo prazo
Antes da guerra, novos projetos nos EUA e no Catar prometiam ampliar significativamente a oferta de GNL até 2026-2027. Hoje, a previsão da Agência Internacional de Energia aponta oferta global 15% abaixo do previsto, com maior déficit em 2026-2027. A limitação de capacidade de engenharia e custos adicionais de equipamentos criogênicos pesam sobre o ritmo de obras.
A especialista aponta que a Europa terá de se ajustar a cenários mais restritos de gás, com impactos desiguais entre países. Itália e Alemanha aparecem como mais pressionados pela dependência de energia, enquanto França e Espanha mantêm vantagens por nuclear e renováveis, respectivamente.
No curto prazo, a reabertura do estreito de Ormuz não resolve o desafio europeu. A estratégia de 2022 para reduzir o peso do gás russo permanece dependente de reparos e de novas capacidades de GNL, com ajustes de demanda, renováveis e integração de redes como caminhos prováveis.
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