Amsterdã passou a proibir, desde 1º de maio, anúncios de produtos ligados à carne e aos combustíveis fósseis em espaços públicos, tornando-se a primeira capital do mundo a adotar uma regra desse tipo. A restrição retirou de outdoors, pontos de ônibus, abrigos de bonde, estações de metrô, fachadas e estruturas urbanas publicidades de hambúrgueres, nuggets […]
Amsterdã passou a proibir, desde 1º de maio, anúncios de produtos ligados à carne e aos combustíveis fósseis em espaços públicos, tornando-se a primeira capital do mundo a adotar uma regra desse tipo.
A restrição retirou de outdoors, pontos de ônibus, abrigos de bonde, estações de metrô, fachadas e estruturas urbanas publicidades de hambúrgueres, nuggets de frango, carros a gasolina, cruzeiros marítimos, passagens aéreas e pacotes turísticos com voos.
A lei foi aprovada pela Câmara Municipal em janeiro, por 27 votos a 17, e tem como objetivo alinhar a comunicação urbana às metas ambientais da capital holandesa.
Metas climáticas orientam a decisão
A cidade pretende atingir neutralidade de carbono até 2050 e reduzir pela metade o consumo de carne da população local no mesmo período. Amsterdã também quer aumentar a participação de proteínas de origem vegetal no consumo dos residentes de 40% para 60% até o fim desta década.
Integrantes do conselho municipal afirmam que a crise climática exige medidas concretas e que não faz sentido o poder público promover produtos associados a altas emissões enquanto tenta reduzir o impacto ambiental da cidade. Amsterdã já vinha limitando esse tipo de publicidade desde 2020.
Anneke Veenhoff, do Partido Verde-Esquerda, afirmou que o município não deveria lucrar com a locação de espaços públicos para anúncios de produtos contrários às políticas climáticas locais.
Anke Bakker, do Partido para os Animais e idealizadora das restrições, rejeitou a acusação de paternalismo estatal e disse que a medida busca reduzir a influência constante de grandes empresas sobre escolhas de consumo.
A carne representava cerca de 0,1% dos gastos com publicidade externa em Amsterdã. Produtos relacionados a combustíveis fósseis correspondiam a aproximadamente 4%.
Apesar da participação pequena no mercado publicitário, defensores da regra afirmam que a decisão tem peso político ao colocar carne, voos, cruzeiros e carros a gasolina e diesel no mesmo debate climático.
Setores criticam restrição e impacto ainda é incerto
A Associação Holandesa de Carnes criticou a medida e classificou a proibição como uma forma indesejável de influenciar o comportamento do consumidor.
A entidade afirma que a carne fornece nutrientes essenciais e deve continuar visível e acessível. A Associação Holandesa de Agentes de Viagens e Operadores Turísticos também contestou a restrição a anúncios de pacotes com viagens aéreas e vê a regra como desproporcional à liberdade comercial das empresas.
Antes da votação, grupos como Creatives for Climate e Fossil Free Advertising divulgaram uma carta aberta com apoio de mais de cem profissionais.
A advogada Hannah Prins, da organização Advocates for the Future, defende que a proibição cria um paralelo com mudanças históricas na publicidade de cigarro e pode alterar o que a sociedade considera normal em espaços públicos.
Ainda não há evidências diretas de que a retirada de anúncios de carne em áreas públicas leve a uma mudança no consumo da população. Joreintje Mackenbach, epidemiologista do Departamento de Epidemiologia e Ciência de Dados do Hospital Universitário de Amsterdã, considera a iniciativa um experimento natural para observar o impacto da remoção desses estímulos nas normas sociais.
Ela citou um estudo segundo o qual a proibição de anúncios de junk food no metrô de Londres em 2019 levou à queda na compra desses produtos na capital britânica.
A capital holandesa segue medidas já adotadas por outras cidades. Haarlem, a 18 km a oeste de Amsterdã, anunciou em 2022 uma ampla proibição da maioria dos anúncios de carne em espaços públicos, que entrou em vigor em 2024 junto com a restrição a anúncios de combustíveis fósseis.
Utrecht, Nijmegen e Haia também adotaram ou discutem regras semelhantes. Em 2025, um tribunal em Haia rejeitou uma ação movida por operadores turísticos contra a proibição da publicidade.
Fora da Holanda, dezenas de cidades já proibiram ou avaliam restringir anúncios de combustíveis fósseis. Entre elas estão Edimburgo, Sheffield, Estocolmo, Florença e Sydney. Na França, a proibição vale para todo o país.
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