- Em 1993, Samuel Huntington sugeriu que os grandes conflitos globais passariam a ser moldados por identidades culturais e civilizacionais, e não por ideologias.
- Atentados de 11 de setembro de 2001 e a propaganda do Estado Islâmico mostraram retórica religiosa e civilizacional, com exemplos como Modi, Orbán e Xi associando política nacional a identidades culturais.
- A ideia de que o Ocidente perderia poder relativo ganhou força: a China se tornou segunda maior economia e buscou influência global, enquanto países adotaram mecanismos de equilíbrio contra a liderança ocidental.
- A previsão de ocidentalização não se confirmou: China e Rússia cresceram economicamente/tecnologicamente sem adotarem liberalismo ocidental; a Primavera Árabe evidenciou limitações dessas previsões.
- A guerra na Ucrânia evidenciou a atuação de alianças civilizacionais, com apoio ocidental a Kiev e aproximações entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte.
A publicação de 1993 na Foreign Affairs trouxe a tese de Samuel Huntington de que, após a Guerra Fria, os conflitos globais passariam a ser moldados por identidades culturais e civilizacionais. A ideia gerou críticas entre muitos acadêmicos de peso.
No decurso de três décadas, parte do diagnóstico se manteve relevante, mesmo diante de críticas à sua simplificação. Perguntas sobre o papel de religião, cultura e identidade na política internacional continuam em pauta, com evoluções distintas em diferentes regiões.
1. A identidade substituiria a ideologia
Huntington defendia que o mundo deixaria de ser organizado por capitalismo versus socialismo. Em vez disso, disputas seriam definidas por religião, nacionalidade e identidade cultural. O ataque de 11 de setembro reforçou esse foco.
Grupos extremistas passaram a articulas lidos pela moldura civilizacional. Na política interna, Modi na Índia, Orbán na Hungria e Xi na China passaram a enfatizar identidades nacionais como eixo de poder. O vocabulário civilizacional ganhou centralidade.
2. O Ocidente perderia poder relativo
A tese previa queda relativa da influência ocidental, diante do crescimento de civilizações como a chinesa. Pequim seria rivais estratégico dos EUA, buscando hegemonia regional sem liberalização política imposta.
A China tornou-se segunda maior economia, expandiu influência e investiu em infraestrutura global. O balanço de poder passou a incluir esforços de países do Sul Global e o uso de mecanismos de equilíbrio econômico e político.
3. A modernização não produziria ocidentalização
Huntington apontava que prosperidade econômica não exigiria adoção automática de modelos democráticos ocidentais. Países poderiam crescer sem abrir mão de tradições políticas.
A China exemplifica esse cenário, com grande desenvolvimento sem liberalização plena. Rússia, Turquia e outros seguiram trajetórias semelhantes, fortalecendo identidades nacionais em vez de plurarismo ocidental.
4. O mundo islâmico continuaria no centro de conflitos regionais
A previsão considerava mudanças demográficas como potencial motor de tensões regionais e fluxos migratórios. Guerras civis e instabilidade em várias áreas reforçaram essa leitura prática de fronteiras culturais.
Eventos de migração para a Europa e conflitos no Oriente Médio deram contornos a esse debate. O tema permanece relevante para entender disputas e políticas migratórias atuais.
5. Guerras tenderiam a atrair aliados civilizacionais
A noção de “fault line wars” sugeria que conflitos em fronteiras civilizacionais atraem apoio de Estados culturalmente próximos. Observou-se esse padrão na Bósnia e em outras regiões.
A guerra na Ucrânia reacendeu o debate, com apoio ocidental a Kiev e aproximação de Rússia, China e aliados em outras frentes. A interpretação não esgota as causas do conflito, que envolvem fatores diversos.
Ao longo do tempo, Huntington simplificou aspectos da política global, mas parte de seu diagnóstico persiste. Religião, cultura e identidade mantêm peso considerável na dinâmica internacional, mesmo diante de mudanças sistêmicas.
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