- Um profissional com 25 anos trabalhando com ajuda internacional observou, em um mercado de Islamabad, a organização de um grupo de lojistas que está sendo pressionado a deixar o centro da cidade.
- Os lojistas formaram uma associação local para eleger liderança e tratar de problemas como evasão de impostos, necessidades não atendidas pelo governo e ameaça de remoção.
- O episódio mostrou a diferença entre a civil sociedade real, baseada na comunidade, e o ecossistema de ONGs financiadas por doadores, muitas sem vínculo direto com quem recebem os serviços.
- O texto critica a forma como a ajuda internacional favoreceu organizações que atraem fundos, em vez de apoiar grupos realmente representativos das pessoas, destacando falhas de accountability.
- O autor sugere que doadores deveriam entender melhor a existência de organizações locais, aplicar padrões de prestação de contas equivalentes aos usados com governos e distinguir entre parceiros de implementação e atores autênticos da civil sociedade.
Um encontro cotidiano em um mercado de Islamabad expôs falhas na relação entre a assistência internacional e a sociedade local. Em uma tarde quente de agosto, um morador aguardava a ajuda de um mecânico para consertar seu carro, próximo ao escritório da embaixada dos Estados Unidos. O que parecia uma tarefa comum revelou uma dinâmica mais complexa sobre participação e representação cívica.
Assistentes e lojistas discutiam, com entusiasmo, as ameaças de despejo e a necessidade de eleger lideranças de uma associação de comerciantes. Correligation, banners e debates intensos mostravam uma mobilização pública que, para o observador, representava uma forma autêntica de sociedade civil em ação, muitas vezes ausente de financiamentos formais.
Desconexões entre doadores e vida local
Ao longo de 25 anos atuando no setor de desenvolvimento, o autor indica que não viu financiamentos de doadores alcançarem estruturas como a associação de lojistas. A crítica central é a distância entre o que é financiado e o que realmente existe no terreno, destacando um modelo de assistência enfocado em organizações que dependem de fundos internacionais mais do que das comunidades que servem.
O texto aponta um ecossistema de ONGs profissionais, com prazos curtos, metas de desembolso rápidas e contratações orientadas a propostas. Essas organizações, segundo o relato, tendem a mudar de área conforme o dinheiro, em vez de manter foco em uma causa com base comunitária.
O papel da sociedade civil no país
O autor relembra que a sociedade civil em Pakistan surge como ponte entre Estado e mercado, sendo organizada por meio de guildas, redes religiosas, conselhos de bairro e associações profissionais. Em contraste, muitos financiamentos externos não reconheceram essas estruturas, privilegiando organizações que podiam apresentar propostas em inglês fluente.
Essa priorização levou à criação de uma camada de organizações que, segundo a análise, respondem mais aos doadores do que aos membros que deveriam representarem. A gestão é frequentemente associada a redes de poder familiares ou institucionais, o que compromete a representatividade.
Caminhos para uma parceria mais fiel
Entre as propostas, o autor defende que doadores passem a mapear a existência de organizações locais antes de financiar, estabeleçam mecanismos de accountability equivalentes aos aplicados aos governos e diferenciem claramente entre parceiros de implementação e atores genuínos da sociedade civil. A ideia é ampliar a participação e reduzir a dependência de propostas em língua inglesa.
A reflexão final aponta que, naquele dia, no mercado de Islamabad, o foco era a liderança da associação e a legitimidade de suas decisões — uma expressão direta de civil society que não recebeu o financiamento esperado. O texto sugere que o apoio externo deverá respeitar estruturas comunitárias existentes, ao invés de moldá-las para atender a prioridades de doadores.
Mohammad Altaf Afridi, ex-senior development specialist da USAID no Paquistão, assina o texto.
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