- Conferência Global Partnerships em Londres acontece em meio a custos de vida elevados, orçamento de ajuda reduzido e desafios logísticos no setor.
- Críticos apontam que grandes ONGs internacionais não conseguem se adaptar ao modelo de liderança local, mantendo estruturas que dificultam a transformação.
- A proposta central é um novo modelo de doação que direcione recursos diretamente a atores locais e nacionais, com maior autonomia e participação das comunidades.
- Pergunta-chave: pelo menos 90% do financiamento deveria ir a organizações lideradas localmente, caso contrário o sistema beneficia as elites em vez das comunidades.
- Sugestões para o caminho? reduzir infraestrutura, favorecer a sociedade civil local, repensar parcerias e responsabilização, com foco em quem está no terreno.
A conferência Global Partnerships, apoiada pelo governo britânico, aconteceu em Londres nesta semana. O evento ocorre em meio a custos de vida elevados, redução de orçamentos de ajuda e tensões geopolíticas, como o petróleo no Estreito de Hormuz. O tema central é a adaptação do setor humanitário frente a um cenário de recursos restritos.
Analistas e executivos de organizações internacionais apontam que as grandes ONGs precisam renovar estruturas que hoje favorecem sedes no exterior e camadas de gestão. A crítica é de que a descentralização prometida não se materializou, deixando vozes locais com poder restrito frente a decisões tomadas distante dos contextos capturados no terreno.
Entre as reclamações está o alto gasto com captação de recursos, com questionamentos sobre o uso de até centenas de milhões de dólares anuais para atividades no próprio país. Enquanto isso, organizações em Sudão, Bangladesh e Myanmar demandam lideranças nacionais para liderar soluções de desenvolvimento.
Defensores da mudança defendem que fundos não vinculados a fins específicos possam ir diretamente a atores locais. A ideia é construir parcerias equitativas, que fortaleçam organizações da sociedade civil feministas e de base, reduzindo a burocracia entre sedes e operações locais.
O debate também envolve o papel das grandes agências internacionais diante de orçamentos em queda. A proposta é redirecionar recursos não restritos e permitir que a sociedade civil lidere agendas, o que exigiria reduzir infraestrutura pesada e repensar a governança.
Autoridades destacam que nem todas as organizações devem manter o mesmo papel atual. Algumas podem migrar, fundir ou se afastar, enquanto outras teriam a oportunidade de provar mudança real. O objetivo é evitar que o sistema se preserve apenas por tradição.
Especialistas defendem um novo modelo de doação, com dinheiro fluindo para atores locais e nacionais, construindo confiança e solidariedade. A accountability passaria a envolver comunidades, não intermediários e controles extensos.
A discussão de política pública fica ao lado de perguntas práticas: como mensurar se pelo menos 90% do financiamento vai para organizações lideradas localmente, com poder de decisão real? Sem esse indicador, a crítica de privilégios de elites persiste.
O artigo de opinião de Halima Begum, executiva de ONG e ex-chefe de Oxfam, ActionAid e do Runnymede Trust, é citado como referência para o debate. Begum aponta a necessidade de uma transformação profunda para além de ajustes internos.
A leitura é de que algumas grandes ONGs podem navegar pela mudança, desde que flexibilizem recursos, descentralizem a autoridade e reduzam a dependência de estruturas de alto custo. O restante do setor precisa acompanhar para evitar que a discussão permaneça apenas no papel.
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