- O Corredor Territorial Yavarí‑Tapiche, que envolve partes do Brasil e do Peru, abriga a maior concentração de povos em isolação (PIACI) e está sob ameaça de atividades extrativas em grande escala.
- Um novo relatório aponta que blocos de petróleo e gás se sobrepõem a 10% do corredor de 16 milhões de hectares, afetando florestas tropicais e áreas protegidas.
- Riscos incluem impactos ambientais, poluição de cursos d’água, doenças e conflitos sociais, com projetos de mineração e exploração de madeira também em curso na região.
- Há casos de derramamento de óleo próximos a áreas de PIACI, e projetos de petróleo podem atingir reservas como Tapiche, Curín e o rio Blanco, aumentando o risco para comunidades isoladas.
- Recomendações incluem ampliar monitoramento indígena, reforçar governança local, suspender concessões extrativas em territórios PIACI e melhorar infraestrutura e segurança para proteger povos em isolamento.
Indígenas em isolamento na bacia Yavarí-Tapiche, um dos maiores corredor florestais contínuos da Amazônia, enfrentam pressões de atividades extractivas e industriais em grande escala. O alerta vem de um relatório conjunto de Earth Insight, ORPIO, COIAB e AIDESEP, que aponta riscos reais para comunidades PIACI e para os ecossistemas locais.
O estudo mostra que blocos de petróleo e gás cruzam 10% do corredor, que abrange 16 milhões de hectares. Há sobreposição com quase 1,7 milhão de hectares de floresta tropical úmida, além de áreas de biodiversidade e de proteção ambiental. A pressão de hidrocarbonetos é destacada como principal ameaça na margem peruana do corredor.
A região abrange estados brasileiros de Amazonas e Acre e os departamentos peruanos de Loreto e Ucayali. O território abriga grande diversidade de primatas e abriga ao menos 17 grupos isolados entre Brasil e Peru. Em ambos os países, áreas protegidas coincidem com reservas indígenas e terras em reconhecimento, ainda lento em avançar.
Riscos e impactos
Concessões de mineração sobrepõem o corredor e centenas de mil hectares de exploração de madeira também estão em jogo. Vazamentos de óleo têm potencial para contaminar rios e comprometer o abastecimento de comunidades que dependem de água e pesca para a subsistência. Em 2024 houve incidente de derramamento próximo a áreas de reserva ambiental na Amazônia peruana.
Além de poluição hídrica, o estudo aponta impactos na saúde pública, conflitos entre comunidades e riscos de contatos forçados com povos em isolamento. Projetos de óleo e gás, bem como a exploração de mineração e madeira, elevam o risco de deslocamentos e violências associadas.
Caminhos propostos
O relatório recomenda apoio logístico e de segurança para desmantelar redes ilegais, fortalecimento de governança indígena e aumento de monitoramento liderado por povos originários. Também defende investimentos em infraestrutura básica, incluindo energia e conectividade digital, para ampliar a autonomia das comunidades.
Representantes dos povos indígenas dizem que é necessário interromper concessões extractivas nas terras PIACI e realocar ou revogar blocos já existentes. Especialistas destacam que a instabilidade política no Peru tem fragilizado o aparato institucional de proteção ambiental e cultural, o que facilita avanços de interesses econômicos na fronteira extractiva.
Beso, líder de comunidade indígena peruana, enfatiza a importância da floresta íntegra para alimentação, saúde e proteção de povos isolados. Ele reforça que sem proteção adequada, as comunidades PIACI enfrentam riscos crescentes de contágio, violência e perda de território.
Roberto Tafur Shupingahua, da Federação de Comunidades Nativas da Bacia Tapiche Blanco, indica que uma empresa estatal de hidrocarbonetos atua na avaliação de um campo óleo em áreas vizinhas, o que levanta preocupação entre os moradores locais. Autoridades competentes não responderam aos pedidos de comentário até o fechamento deste texto.
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