- Deserção em massa e recusa de combate na Rússia: estimados cerca de 60 mil militares abandonaram unidades ou se recusaram a lutar; há também casos de soldados que se escondem ou buscam atestados médicos para fugir do serviço.
- O caso de Igor Shchetko: ex-soldado das forças de mísseis estratégicos, desertou após perceber que iria para a zona de combate; foi para a Armênia e depois para a União Europeia, correndo risco de prisão se retornasse.
- Recrutamento atual do Exército: desde 2023, recrutamento por contratos lucrativos; entre contratados há presidiários, migrantes, devedores e moradores de regiões economicamente fragilizadas, com aumento de programas patrióticos em escolas e universidades.
- Vida civil sob a ótica da guerra: a mobilização passou a fazer parte do cotidiano de algumas famílias, gerando renda estável; mulheres de soldados mobilizados atingem classe média, com gastos e consumo crescentes, enquanto há relatos de exclusão social de veteranos com passado criminal.
- Clima interno das tropas: surgimento de um “dicionário de guerra” que descreve o controle, punição e sobrevivência; existe um “mercado negro da sobrevivência” com compra de licenças, transferências e atestados médicos para evitar missões.
Após pesquisar desertores e ativistas russos exilados, a reportagem mostra que a war na Ucrânia criou desilusão, medo e exclusão no Exército russo e na sociedade. Deserção e recusa a combater aparecem como respostas à escalada do conflito.
Igor Shchetko, ex-soldado da força de mísseis estratégicos, desertou em 2021 ao perceber que não haveria saída legal do serviço. O estopim foi o recibo de uma transferência para a linha de frente e a constatação de que não aceitava lutar. Ele seguiu para a Armênia e, depois, para a União Europeia.
A pressão do serviço militar, aliada a casos de suicídio de recrutados, alimentou a decisão de desertar. Shchetko admite ter recebido ordens que não obedeceu, indicando resistência individual a obedecer a comandos de guerra. A fuga levou-o a buscar refúgio fora da Rússia.
Deserção e recusa em combater
Na visão de ativistas, mais de 60 mil militares russos abandonaram unidades ou recusaram-se a lutar. Além de deserções, há casos de soldados que se ocultam no próprio país ou tentam ser considerados incapazes para o serviço.
O comitê Antiguerra da Rússia, reunido em Estrasburgo, reúne exilados que criticam o regime de Putin. Autoridades russas classificam a organização como terrorista. Mais de 20 mil processos criminais foram abertos na Rússia por ausência, deserção ou recusa em lutar.
Shchetko afirma que, se extraditado, pode enfrentar pena de até 15 anos ou ser enviado de volta ao front. O Exército passou a recrutar, desde 2023, por meio de contratos com remuneração elevada, incluindo pessoas presidiárias, migrantes e devedores.
Quem está sendo recrutado para o Exército
Observadores destacam que o recrutamento envolve também regiões economicamente mais frágeis e necessidades financeiras, com o Estado promovendo treinamentos patrióticos em escolas e universidades. Parte dos recrutas são voluntários; outra parcela entra por necessidade.
Representantes apontam que unidades bem treinadas coexistem com setores de maior vulnerabilidade, qualificados como força de combate e, por vezes, como carne de canhão. O debate envolve a diversidade de motivações dentro do Exército russo.
Visão interna das tropas
Antropólogos relatam que o clima entre soldados tornou-se marcado por violência e controle. Um vocabulário usado no front descreve situações de vigilância, punição e violência dentro das unidades, incluindo termos para detenção informal e interrogatórios de retorno de cativeiro.
A vida civil tem mostrado impactos profundos. A frente de batalha é vista por muitos como lugar onde pessoas são recursos; a saída ocorre por ferimentos, captura, deserção ou morte. Surge também um mercado de sobrevivência para licenças e transferência de frente.
Impacto na sociedade russa
Jornalistas relatam que o conflito entrou no cotidiano de famílias, gerando renda para algumas. Grupos de apoio abriram espaços para esposas de mobilizados, que evoluíram para redes de sustento. Em algumas escolas, filhos de combatentes recebem privilégios alimentares.
A percepção pública envolve uma valorização do dinheiro sobre o heroísmo. Veteranização estatal contrasta com a exclusão de antigos combatentes com histórico criminal. O desfecho do caso Shchetko reforça a tensão entre autoconservação e lealdade à própria integridade.
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