- Leo Hare deixou o Texas e pediu asilo na Rússia no fim de 2023, buscando uma vida que acreditava ser melhor para a família, envolvido com fazenda e vídeos sobre a vida no país; ele era cristão e viu na Rússia valores tradicionais como atrativo.
- A Rússia criou, em 2024, o visto de Valores Compartilhados, conhecido como visto anti-woke, para cidadãos de 47 países considerados “inimigos” e comissiona residência temporária de até três anos; não há exigência de provas de idioma, história ou direito, bastando declarar compartilhar valores tradicionais e rejeitar a ideologia neoliberal descrita pelo governo.
- Após três anos, quem estiver no visto pode converter para uma Permissão de Residência Permanente ou deixar o país; a prova de idioma e histórico, entre outros documentos, passa a ser exigida na etapa de PRP; há taxa administrativa de 1.600 rublos e checagens médicas e criminais.
- A imprensa estatal mostrou o caso de Leo, e ele chegou a agradecer a Putin pela acolhida; porém, semanas depois, o grupo foi fraudado em cerca de 5 milhões de rublos, ficou sem moradia e passou por mudanças familiares, com os filhos mais velhos voltando aos EUA.
- Outros ocidentais que migraram via o visto dizem ter encontrado dificuldades e ambições diversas; ainda que o programa tenha atraído um grupo pequeno, ele facilita mudanças de vida para alguns, por amor, fé ou desejo de mudança cultural.
Leo Hare, de Texas, pediu asilo e mudou-se para a Rússia no final de 2023, buscando um futuro para a família. O movimento integra um grupo de ocidentais que migra em busca de “valores tradicionais” promovidos pelo governo russo.
O homem, pai de três filhos, passou a filmar vídeos sobre a vida no país e a interagir com comunidades locais, enquanto explorava atividades como provar pratos regionais e trabalhar na lavoura. Sua trajetória expõe a ideia de que a Rússia oferece uma sociedade alicerçada na fé cristã e na família.
A chegada de Hare assinala a circulação de uma migração pouco comum, impulsionada pela vaga de imigrantes de países como Canadá, Reino Unido, EUA e parte da Europa. O fluxo ocorre em meio ao isolamento internacional da Rússia.
Visas e promessas
Lançada em 2024, a visa Shared Values permite residência temporária de até três anos para cidadãos de 47 países considerados “inimigos” pela Rússia. Não há teto de admissões, e não é exigido domínio de russo, história ou leis.
Quem se candidata precisa declarar alinhamento com valores espirituais e morais tradicionais russos, além de rejeitar o que o governo chama de ideologia neoliberal destrutiva. Ao fim do período, é possível converter para residência permanente mediante novos requisitos.
O programa não oferece moradia ou assistência financeira. A taxa administrativa é de 1.600 rublos, e o processamento envolve checagens médicas e de antecedentes.
Realidades no terreno
A Rússia afirma que quase 3.400 pessoas haviam aplicado até a primavera de 2026, mas números oficiais não são verificados de forma independente. O regime vê a medida como expressão prática de seus valores tradicionais.
Com o tempo, Hare relatou dificuldades, incluindo um golpe financeiro que o deixou desamparado. Ele viveu em Ivanovo e, em momentos, separou-se da esposa, com os filhos mais velhos retornando aos EUA. A família recebeu ajuda de moradores locais, incluindo uma mulher que ensinou o filho mais novo.
Apesar dos contratempos, Hare destaca aspectos positivos, como a hospitalidade de alguns russos e a experiência de trabalhar como tutor de inglês. Ele reconhece que as mudanças também trouxeram limitações econômicas e de acesso à informação.
Outros relatos e perspectivas
Outra visão é a de residentes ocidentais que chegaram sob a mesma promessa, mas divergem quanto à ideia de que a Rússia seja um paraíso conservador. Ben, que prefere manter o sobrenome em segredo, reside perto da fronteira com a Ucrânia e aponta realidades como taxas de divórcio e aceitação de abortos.
Apesar de ter entrado no país com visto privado, ele observa que nem todos os migrantes compartilham da visão promovida pela agência de mudança ou pela imprensa estatal. Em muitos casos, os migrantes destacam fatores culturais, não geopolíticos, como motivadores.
Do ponto de vista institucional, o veredito sobre a eficácia da Shared Values visa permanece limitado. Mesmo com um número modesto de admissões, a política de migração sinaliza uma estratégia de comunicação do Kremlin para apresentar a Rússia como guardiã de valores tradicionais frente a percepções ocidentais.
Entre na conversa da comunidade