- Yanis Varoufakis relata dezenas de vídeos deepfake com seu rosto e voz circulando no YouTube e em redes sociais, incluindo falas sobre o golpe na Venezuela.
- Ele tentou, diversas vezes, remover os vídeos junto a grandes plataformas, mas as peças reapareciam sob diferentes formatos, dificultando a atuação das ferramentas de retirada.
- O economista analisa os deepfakes sob a ótica do tecnofeudalismo, afirmando que plataformas digitais transformam dados, identidade e trabalho em recursos controlados por “senhores” da nuvem.
- Em meio a essa reflexão, surge a ideia de iseгoria (iségoria) na tradição ateniense: nem o direito à fala, mas o direito de suas ideias serem avaliadas pelos seus méritos, independentemente de quem fala.
- O texto conclui que é preciso agir politicamente para socializar o capital da nuvem e incentivar a avaliação crítica de argumentos, não da autoridade do emissor, destacando dois entraves das plataformas.
Yanis Varoufakis enfrenta a disseminação de deepfakes com sua imagem. Vídeos com aparência dele, gravados ou dublados por inteligência artificial, surgem no YouTube e nas redes sociais, apresentando falas que ele não proferiu. O caso ganhou repercussão após a descoberta de um clipe em que vestia uma camisa azul, presente da irmã, que não chegou a deixá-lo em sua ilha.
Desde o início, centenas de vídeos com o rosto e a voz gerados por IA cirularam na internet. Nos últimos dias, novas séries surgiram, incluindo falas sobre o golpe na Venezuela. Os conteúdos variam entre ataques verbais e declarações plausivelmente persuasivas, confundindo apoiadores e opositores.
Varoufakis descreve a experiência como uma exposição repentina à própria “marionete digital” em uma máquina tecnofeudal que, segundo ele, já teria sido defendida em obras anteriores. Ele relata tentativas frustradas de remover os vídeos por meio de plataformas como Google e Meta, com remoções que logo são revertidas por novos conteúdos.
Inicialmente, o economista pediu providências técnicas para derrubar os deepfakes, mas acabou aceitando a dificuldade de controle, já que novas versões aparecem rapidamente. A experiência o levou a refletir sobre o papel das big techs na transformação do capital e da eficácia da crítica pública em ambientes algorítmicos.
A análise de Varoufakis passa pela ideia de que as falsificações evidenciam uma nova forma de controle: a propriedade da mensagem pela elite tecnológica, que pode moldar narrativas e cercear o debate público. Ele questiona se é possível recuperar a isegoria — o julgamento dos argumentos pela qualidade, não pela origem — em um cenário de identidades digitais manipuláveis.
Apesar da frustração com a remoção de conteúdo, o tema ganha contornos históricos ao relacionar-se aos conceitos de democracia na Antiguidade, onde a ideia de igualdade de fala significava ter as ideias avaliadas por seus méritos. O debate aponta para o desafio de avaliar conteúdos, independentemente de quem os emite.
Entre os dilemas publicados, Varoufakis sugere que deepfakes podem impor uma nova lógica de avaliação pública: menos confiança na pessoa e mais rigor nos argumentos. Ele define, ainda, dois pilares para entender a atual conjuntura: o domínio da plataforma e a capacidade de extrair valor de dados dos usuários.
Por fim, Varoufakis discorre sobre as implicações políticas de uma era em que a identidade audiovisual pode ser apropriada por terceiros. O autor mantém a esperança de que o escrutínio crítico possa ressignificar a participação cívica, mesmo diante de tecnologias que confundem autoria e verdade.
Yanis Varoufakis é economista, político e autor. Seu livro mais recente é Raise Your Soul! A Personal History of Resistance.
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