- Deepfakes, criadas com inteligência artificial, ajudam a manter a misoginia no ambiente digital e ampliam o conteúdo pornográfico e as ameaças contra mulheres.
- Reem Alsalem diz que falta regulação e que o interesse econômico das plataformas alimenta a violência de gênero online; defende mais liderança feminina em estruturas de governança digital.
- O compartilhamento de imagens íntimas sem consentimento, inclusive usadas para inserir rostos de mulheres em conteúdos pornográficos, é apontado como problema recorrente; há casos de vingança e ataques a mulheres públicas.
- A relatora esteve no Brasil recentemente, participou de evento na Universidade de Brasília e de uma sessão no Senado; tentou contato com órgãos do governo, sem resposta oficial.
- Feminicídio é visto como desafio global; 83 mil mulheres foram mortas por serem mulheres, 50 mil por conhecidos, e a proteção estatal ainda é insuficiente, com necessidade de melhor coleta de dados e aplicação de leis.
A relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, afirma que deepfakes, imagens ultrarrealistas criadas principalmente por IA, ajudam a ampliar a misoginia no ambiente digital. Ela aponta que o conteúdo pornográfico e as ameaças contra mulheres mantêm a internet como espaço hostil, devido à falta de regulação e ao interesse econômico das plataformas.
Em entrevista ao Poder360, Alsalem destacou que as tecnologias digitais elevam a escala e a intensidade de assédio e exploração direcionados a mulheres e meninas. Ela disse que esse material reforça estereótipos e tenta convencer as mulheres a se sexualizarem ou venderem o corpo.
Alsalem esteve no Brasil na semana passada para participar de um evento na Universidade de Brasília e de uma sessão na Comissão de Direitos Humanos do Senado. A visita foi extraoficial; ela tentou contato com órgãos do governo, como o Ministério das Mulheres, mas não obteve retorno.
Outro tema enfatizado pela relatora é o compartilhamento de imagens íntimas produzidas por IA sem consentimento. Em muitos casos, pessoas próximas divulgam o material como vingança após término de relacionamentos ou para atingir figuras públicas.
Ela ressaltou ainda a desigualdade de acesso de mulheres às tecnologias digitais e a sub-representação feminina em cargos de liderança que definem regras e políticas dos algoritmos. A necessidade de mais mulheres na governança das plataformas foi destacada.
Segundo Alsalem, poucos países possuem legislação eficaz para enfrentar violência de gênero online. Em muitos lugares não há regras claras para remoção rápida de conteúdos ilegais nem mecanismos de prevenção de circulação de material não autorizado.
Ela defende padrões mais rígidos para as empresas de tecnologia e a aplicação efetiva das leis existentes. A especialista enfatiza a importância de melhores mecanismos de coleta de dados sobre episódios de violência para orientar políticas públicas.
Feminicídio é desafio global
A entrevista também aborda o feminicídio como desafio global, classificado pela relatora como emergência em nível pandêmico. Dados da ONU indicam 83.000 mulheres mortas por serem mulheres, 50.000 por pessoas próximas.
Alsalem aponta a falha dos governos em proteger as mulheres e a escassez de investimentos em mecanismos de defesa e na coleta de dados. A responsável ressaltou a necessidade de recursos para políticas voltadas a mulheres e a outros grupos vulneráveis.
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