- A democracia enfrenta problemas, e Landemore sustenta que o problema não é a democracia em si, mas a política eleitoral atual.
- A solução apresentada é radical: abandonar eleições e usar assembleias de cidadãos escolhidos ao acaso para deliberar, propor políticas e influenciar decisões.
- Nesses atendimentos, cidadãos comuns discutem com apoio de especialistas, aprendem juntos e, ao final, produzem recomendações para políticos.
- Casos como a grande Assembleia Nacional da França sobre clima mostram que propostas podem emergir de assembleias bem estruturadas, com alto apoio público mesmo em temas complexos.
- A ideia ganha impulso mundialmente (movimento sorticionista) e já envolve planos práticos, como uma assembleia em Connecticut; há debate sobre como medir legitimidade e evitar instrumentalização política.
Hélène Landemore, professora da Yale, apresenta uma proposta radical para a democracia: abrir mão de eleições robustas e substituir parte da tomada de decisão por assembleias de cidadãos escolhidos ao acaso. Em entrevista ao FP Live, ela sustenta que o problema não é a democracia em si, mas a forma eleitoral de governar.
Segundo a pesquisadora, eleições tendem a favorecer elites e concentrar poder, gerando desigualdades de participação. Ela defende que a distribuição de poder seria mais justa por meio da seleção aleatória, com os cidadãos exercendo a defesa do interesse público sem a intermediação de políticos profissionais.
O conceito central é a democracia deliberativa. Assembléias amplas, formadas por cidadãos comuns, passam meses debatendo temas complexos com apoio de especialistas. Ao final, apresentam recomendações aos representantes eleitos, buscando consensos que vão além de posições ideológicas.
Landemore cita a prática na França, onde uma assembléia nacional tratou de políticas climáticas após protestos. Os participantes receberam remuneração e, ao longo de nove meses, apresentaram propostas que incluíram alternativas ao imposto de carbono e melhorias setoriais para habitação, entre outras medidas.
O método também já ocorreu em outras regiões, como nas Filipinas, onde grupos distintos discutiram violência e pobreza. Em diferentes contextos, as assembleias mostraram capacidade de promover reconciliação entre divergentes e produzir resultados que foram debatidos pela sociedade.
Ela detalha um caso francês de end-of-life, com uma votação que resultou em recomendações de liberalização gradual da eutanásia, acompanhadas de investimentos maciços em cuidados paliativos. O grupo, ao final, reconheceu a importância de salvaguardas para minorias e buscou equilíbrio entre propostas conflitantes.
A interlocutora discute cenários de implementação, destacando que o objetivo não é eliminar completamente as eleições, mas criar espaços deliberativos que coexistam com o voto. Em modelos reformistas, as assembleias poderiam, com o tempo, influenciar decisões políticas ou até deslocar o peso dos representantes eleitos.
Críticas comuns aparecem na conversa, como a possibilidade de decisões econômicas difíceis ficarem a cargo de cidadãos comuns. Landemore afirma que as assembleias já enfrentam trade-offs e menciona casos em que propostas aparentemente impopulares foram aceitas diante de argumentos técnicos e evidências apresentadas por especialistas.
A proposta também envolve a gestão de crises. Em situações de guerra ou emergências, o modelo não excluiria mecanismos de decisão emergenciais, mas permitiria que uma assembleia designasse ou supervisionasse lideranças temporárias, sem necessariamente depender de eleições para cada etapa.
Sobre a viabilidade política, Landemore aponta que há movimento internacional a favor da governança baseada no sorteio. Ela já planeja uma assembleia em Connecticut com apoio de autoridades locais, sinalizando que mudanças estruturais podem surgir de iniciativas pontuais, mesmo diante de resistência institucional.
O debate aborda a relação entre legitimidades: a eleição confere mandato e legitimidade, enquanto a assembleia fortalece a igualdade entre os cidadãos. A pesquisadora destaca que, mesmo com riscos, o modelo pode ampliar a confiança pública e reduzir o ressentimento gerado por políticas vistas como elitistas.
Ela reconhece críticas, incluindo o risco de instrumentalização política. Contudo, sustenta que a prática tem potencial para ampliar o espaço cívico, ampliar o Overton e, com supervisão adequada, evitar abusos de poder ou “washing” participativo.
A conversa também aborda a necessidade de equilíbrio entre política e participação. Landemore enfatiza que a democracia não é um ideal estático; pode evoluir por meio de experiências que ampliem a participação sem abrir mão de princípios de governança estável e responsável.
A entrevistada ressalta que não percebe as propostas como populistas, mas como uma forma de retorno à participação direta, com salvaguardas para evitar concentrações de poder. O objetivo é reduzir a distância entre cidadãos e decisões públicas sem abandonar o funcionamento do sistema representativo.
A reportagem acompanha o momento de experimentação democrática global, em que ativistas, acadêmicos e gestores públicos buscam caminhos para ampliar o protagonismo popular. As propostas dividem opiniões, mas ganham espaço como pista para redesenhar a governança.
Fontes consultadas pela reportagem destacam que as ideias discutidas por Landemore já inspiram debates em institutos de pesquisa, universidades e câmaras legislativas. O público pode acompanhar, por meio de futuras ações, a evolução dessas experiências no âmbito local e nacional.
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